O
TRISTE FIM DOS COVEIROS DE POLICARPO
Prof
Eduardo Simões
Nunca entendi porque a Academia
Brasileira de Letras não aceitou incorporar Lima Barreto ao seu patrimônio
social. Segundo Francisco de Assis Barbosa, em sua biografia sobre o escritor, repugnava
aos acadêmicos o alcoolismo de Barreto. Talvez eles temessem que, tremelicante,
aquele viesse a quebrar a louça inglesa usada nos chá das cinco. Mas aí vem a
pergunta que não quer calar: se os marimbondos de fogo do Sarney puderam
entrar, porque Lima Barreto de fogo não pode.
O Brasil é um dos raríssimos países onde
se constituiu uma Academia só para promover, para ressaltar, o bom uso da
língua pátria, quando nem Portugal, o pai da criança, se deu a esse trabalho! E
para quê? Se hoje “doutores” e “mestres” formados em universidades estrangeiras
saturam a infosfera de recomendações, estudos, gráficos e o... e o... que mais
vier, afirmando categoricamente que errar é “lindo”, basta que a intenção de
quem se comunica fique clara, que exercícios de caligrafia anulam a personalidade
– o que é desmentido pela grafologia desde o século XVII – e outras coisas mais
sobre a “norma culta” que, pelo seu excesso de sabedoria, não ouso comentar
aqui.
O problema é que crianças assim
educadas têm professores, e esses professores precisam avalia-las, e eu sou um
deles. Como fazê-lo se o que elas escrevem ou dizem não faz o menor sentido.
Eis o que eu tenho detectado: não há mais qualquer distinção entre letra
maiúscula e minúscula, tudo é escrito com letra minúscula; quando se chega ao
fim da linha a palavra é simplesmente interrompida, não há a menor noção de
sílaba, “mérito” da Emilia Ferreiro e o seu letramento; não há mais o
espaçamento no começo do parágrafo, e sequer parágrafo, vire-se; acento? Só o
de sentar; etc. etc. Mas isso não é tudo! Como não há mais caligrafia qualquer
um escreve como quiser, e aí começa o trabalho mais pesado do professor:
entender que raio de sinal gráfico é aquele rabiscado a folha. Os profissionais
da educação, no Brasil, precisam, urgente, de um curso de criptografia.
Moral
da história, a universidade e as escolas de alfabetização, principalmente as
mais abandonadas e pobres desse país, transformaram a prestigiosa Academia
Brasileira de Letras em um elemento meramente decorativo, típico de sociedades
sem tradição e sem história, e, principalmente, sem respeito pelo seu povo, e
que compensa o abandono deste com permissões paternalistas, pois de nada
adianta cultivar boas regras de conduta literária nas altas esferas, se, nas
baixas, o que vale é o vale tudo.
Na entrada de Lorena há uma oficina
mecânica, há uma oficina mecânica na entrada de Lorena, com um detalhe: o
acento circunflexo de “mecânica”, não está sobre o primeiro “a”, mas sobre o
primeiro “c”, um erro que nem meu computador, uma máquina burra, permite que eu
reproduza, mas que para as “autoridades” educacionais de São Paulo está muito
bem. Acho que os imortais ainda não sabem de sua morte.
(viste os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
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