terça-feira, 21 de outubro de 2014

O TRISTE FIM DOS COVEIROS DE POLICARPO

Prof Eduardo Simões

         Nunca entendi porque a Academia Brasileira de Letras não aceitou incorporar Lima Barreto ao seu patrimônio social. Segundo Francisco de Assis Barbosa, em sua biografia sobre o escritor, repugnava aos acadêmicos o alcoolismo de Barreto. Talvez eles temessem que, tremelicante, aquele viesse a quebrar a louça inglesa usada nos chá das cinco. Mas aí vem a pergunta que não quer calar: se os marimbondos de fogo do Sarney puderam entrar, porque Lima Barreto de fogo não pode.
         O Brasil é um dos raríssimos países onde se constituiu uma Academia só para promover, para ressaltar, o bom uso da língua pátria, quando nem Portugal, o pai da criança, se deu a esse trabalho! E para quê? Se hoje “doutores” e “mestres” formados em universidades estrangeiras saturam a infosfera de recomendações, estudos, gráficos e o... e o... que mais vier, afirmando categoricamente que errar é “lindo”, basta que a intenção de quem se comunica fique clara, que exercícios de caligrafia anulam a personalidade – o que é desmentido pela grafologia desde o século XVII – e outras coisas mais sobre a “norma culta” que, pelo seu excesso de sabedoria, não ouso comentar aqui.
         O problema é que crianças assim educadas têm professores, e esses professores precisam avalia-las, e eu sou um deles. Como fazê-lo se o que elas escrevem ou dizem não faz o menor sentido. Eis o que eu tenho detectado: não há mais qualquer distinção entre letra maiúscula e minúscula, tudo é escrito com letra minúscula; quando se chega ao fim da linha a palavra é simplesmente interrompida, não há a menor noção de sílaba, “mérito” da Emilia Ferreiro e o seu letramento; não há mais o espaçamento no começo do parágrafo, e sequer parágrafo, vire-se; acento? Só o de sentar; etc. etc. Mas isso não é tudo! Como não há mais caligrafia qualquer um escreve como quiser, e aí começa o trabalho mais pesado do professor: entender que raio de sinal gráfico é aquele rabiscado a folha. Os profissionais da educação, no Brasil, precisam, urgente, de um curso de criptografia.
          Moral da história, a universidade e as escolas de alfabetização, principalmente as mais abandonadas e pobres desse país, transformaram a prestigiosa Academia Brasileira de Letras em um elemento meramente decorativo, típico de sociedades sem tradição e sem história, e, principalmente, sem respeito pelo seu povo, e que compensa o abandono deste com permissões paternalistas, pois de nada adianta cultivar boas regras de conduta literária nas altas esferas, se, nas baixas, o que vale é o vale tudo.

         Na entrada de Lorena há uma oficina mecânica, há uma oficina mecânica na entrada de Lorena, com um detalhe: o acento circunflexo de “mecânica”, não está sobre o primeiro “a”, mas sobre o primeiro “c”, um erro que nem meu computador, uma máquina burra, permite que eu reproduza, mas que para as “autoridades” educacionais de São Paulo está muito bem. Acho que os imortais ainda não sabem de sua morte.

(viste os blogues construindopiaget.blogspot.com.br  -  historiatexto...)

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