segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ESPERANÇAS AUDACIOSAS E TEMORES INJUSTIFICADOS

Prof Eduardo Simões

            Certamente que foi com um misto de perplexidade, angústia e euforia, dependendo do lado em que se está, que pessoas nos quatro cantos do mundo receberam a notícia proveniente do sínodo dos bispos em Roma, reunidos sob a temática da família, anunciando uma mudança de postura da Igreja Católica no tratamento ao homossexualismo.
            Não se trata de um recuo puro e simples da forte condenação das práticas homossexuais, existentes na Bíblia, em inúmeras passagens como Lv 18,22. 20,13; Rm 1,27; sem falar de uma possível referência em 1Cor 6,9. E para que ninguém tivesse dúvidas de que a coisa era para valer, os Escritores Sagrados acrescentaram pelo menos duas passagens exemplares: a destruição de Sodoma e Gomorra, justificada imediatamente por Gn 19,5, e a quase extinção dos benjaminitas, iniciada por um desejo desenfreado destes em “conhecer” o levita de Efraim (19,22), apesar dos pedidos ingentes de seu hospedeiro (19,23), e que acabou redundando na morte da mulher do viajante e na guerra que se seguiu.
            Vista no conjunto não há dúvidas: a condenação é clara. Mas aqui também pode se levantar uma objeção de peso, pois a Bíblia foi escrita originalmente em um contexto, se é que a pessoa não acredita que o texto foi ditado diretamente por Deus aos ouvidos do hagiógrafo, como acontecia na Antiguidade, bem diferente do nosso, e então é preciso que essas condenações sejam interpretadas no espírito e costumes da época, que condicionavam fortemente a prática do homossexualismo.
            E que ambiente era esse? O homossexualismo estava fortemente vinculado aos rituais da religião pagã tanto asiática como greco-romana, dos quais os judeus deviam guardar distância, para evitar a “contaminação” de seus ideias religiosos, ainda muito objetivos e pouco espirituais. Ora, tal contexto, hoje, não existe mais, e essa questão deixou de ser algo de foro público e até nacional para se tornar algo de foro privado, fortemente condicionado pela solidão do mundo contemporâneo, principalmente, nos paraísos capitalistas das grandes cidades, onde o dinheiro vale mais que as pessoas. Foi a partir dessa realidade que eu ouvi a famosa declaração do Papa Francisco, voltando de sua viagem ao Brasil: “se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”
            Tampouco se sustenta mais a crença antiquada de que a pessoa homoafetiva é necessariamente depravada, e só assume essa postura por “sem-vergonhice”. Existem casais ou pessoas de preferência homossexuais que se tratam com respeito e dão bons exemplos de convivência e urbanidade em sociedade, e muitos há que ainda buscam a fé na Igreja e uma inserção mais plena na comunidade dos fieis, e que nem sempre é acolhido com o devido respeito. Agora, se por ventura houver deles que se comportem de maneira indigna, que sejam tratados da mesma forma que os heterossexuais indignos.
            Dessa postura, preventiva e hostil nasce não poucas frustrações, sentimentos de culpa, mágoas e ressentimentos que fazem essas pessoas, em sua revolta, repudiar o mundo que lhe repudia, e que só lhe usa quando é do seu interesse, com aconteceu com o grande matemático inglês Alan Turing durante a Segunda Guerra, nascendo daí uma atitude de confronto ou defesa, que beira ao pecado explícito e contínuo, devido, às vezes, da incompreensão e falta de caridade, pasmem (!), da comunidade dos santos, que é a Igreja e seus fieis.
            É contra esse tipo de situação absurda que se levantam os bispos e o Papa Francisco, com a anuência de Bento XVI, buscando compreender a realidade dessa gente, e não a sua aprovação, recomendando uma atitude mais adequada, mais moderna e espiritual por parte dos católicos. É também uma postura de humildade diante de um mistério profundo, que não pode ser levado na base do ‘ou branco ou preto’, ‘ou tudo ou nada’, sob pena de arrancarmos o trigo junto com o joio, sem falar que se trata de uma atitude pastoral, sem dúvida relevante, mas que nada muda na teologia, na moral e na dogmática católica.
            Os tradicionais sinceros, creio, não têm nada a temer de mudanças indevidas que acarretem deterioração mensagem e da fé cristã-católica, da mesma forma que os homossexuais se iludiriam se vissem aí a aprovação explícita de sua opção sexual, e que o que foi escrito não está mais valendo. Sempre valerá.
            A Igreja não aprova, mas compreende, respeita e está disposta a caminhar junto, e até advogar por eles junto ao tribunal de Deus com atos e orações, como o faz por todos os seres humanos. Agora aqueles que vivem enxergando fantasmas a cada momento, que se assustam com tudo que foge aos padrões de sua espiritualidade estritamente secular e sociológica, e que à menor mudança já começam a ver catástrofes e apocalipses, só lhes resta uma coisa a fazer: começar a amadurecer, para não chegarem verdes à colheita de Deus.

(visite os blogues construindopiaget.blogspot.com.br  -  historiatexto...)

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