ESPERANÇAS AUDACIOSAS E TEMORES INJUSTIFICADOS
Prof Eduardo Simões
Certamente
que foi com um misto de perplexidade, angústia e euforia, dependendo do lado em
que se está, que pessoas nos quatro cantos do mundo receberam a notícia
proveniente do sínodo dos bispos em Roma, reunidos sob a temática da família,
anunciando uma mudança de postura da Igreja Católica no tratamento ao
homossexualismo.
Não se
trata de um recuo puro e simples da forte condenação das práticas homossexuais,
existentes na Bíblia, em inúmeras passagens como Lv 18,22. 20,13; Rm 1,27; sem
falar de uma possível referência em 1Cor 6,9. E para que ninguém tivesse
dúvidas de que a coisa era para valer, os Escritores Sagrados acrescentaram
pelo menos duas passagens exemplares: a destruição de Sodoma e Gomorra, justificada
imediatamente por Gn 19,5, e a quase extinção dos benjaminitas, iniciada por um
desejo desenfreado destes em “conhecer” o levita de Efraim (19,22), apesar dos
pedidos ingentes de seu hospedeiro (19,23), e que acabou redundando na morte da
mulher do viajante e na guerra que se seguiu.
Vista no
conjunto não há dúvidas: a condenação é clara. Mas aqui também pode se levantar
uma objeção de peso, pois a Bíblia foi escrita originalmente em um contexto, se
é que a pessoa não acredita que o texto foi ditado diretamente por Deus aos
ouvidos do hagiógrafo, como acontecia na Antiguidade, bem diferente do nosso, e
então é preciso que essas condenações sejam interpretadas no espírito e
costumes da época, que condicionavam fortemente a prática do homossexualismo.
E que
ambiente era esse? O homossexualismo estava fortemente vinculado aos rituais da
religião pagã tanto asiática como greco-romana, dos quais os judeus deviam guardar
distância, para evitar a “contaminação” de seus ideias religiosos, ainda muito
objetivos e pouco espirituais. Ora, tal contexto, hoje, não existe mais, e essa
questão deixou de ser algo de foro público e até nacional para se tornar algo
de foro privado, fortemente condicionado pela solidão do mundo contemporâneo,
principalmente, nos paraísos capitalistas das grandes cidades, onde o dinheiro
vale mais que as pessoas. Foi a partir dessa realidade que eu ouvi a famosa
declaração do Papa Francisco, voltando de sua viagem ao Brasil: “se uma pessoa
é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”
Tampouco
se sustenta mais a crença antiquada de que a pessoa homoafetiva é
necessariamente depravada, e só assume essa postura por “sem-vergonhice”. Existem
casais ou pessoas de preferência homossexuais que se tratam com respeito e dão
bons exemplos de convivência e urbanidade em sociedade, e muitos há que ainda
buscam a fé na Igreja e uma inserção mais plena na comunidade dos fieis, e que
nem sempre é acolhido com o devido respeito. Agora, se por ventura houver deles
que se comportem de maneira indigna, que sejam tratados da mesma forma que os
heterossexuais indignos.
Dessa
postura, preventiva e hostil nasce não poucas frustrações, sentimentos de
culpa, mágoas e ressentimentos que fazem essas pessoas, em sua revolta,
repudiar o mundo que lhe repudia, e que só lhe usa quando é do seu interesse,
com aconteceu com o grande matemático inglês Alan Turing durante a Segunda
Guerra, nascendo daí uma atitude de confronto ou defesa, que beira ao pecado
explícito e contínuo, devido, às vezes, da incompreensão e falta de caridade,
pasmem (!), da comunidade dos santos, que é a Igreja e seus fieis.
É contra
esse tipo de situação absurda que se levantam os bispos e o Papa Francisco, com
a anuência de Bento XVI, buscando compreender a realidade dessa gente, e não a
sua aprovação, recomendando uma atitude mais adequada, mais moderna e
espiritual por parte dos católicos. É também uma postura de humildade diante de
um mistério profundo, que não pode ser levado na base do ‘ou branco ou preto’,
‘ou tudo ou nada’, sob pena de arrancarmos o trigo junto com o joio, sem falar
que se trata de uma atitude pastoral, sem dúvida relevante, mas que nada muda
na teologia, na moral e na dogmática católica.
Os
tradicionais sinceros, creio, não têm nada a temer de mudanças indevidas que
acarretem deterioração mensagem e da fé cristã-católica, da mesma forma que os
homossexuais se iludiriam se vissem aí a aprovação explícita de sua opção
sexual, e que o que foi escrito não está mais valendo. Sempre valerá.
A Igreja não aprova, mas compreende,
respeita e está disposta a caminhar junto, e até advogar por eles junto ao
tribunal de Deus com atos e orações, como o faz por todos os seres humanos.
Agora aqueles que vivem enxergando fantasmas a cada momento, que se assustam
com tudo que foge aos padrões de sua espiritualidade estritamente secular e
sociológica, e que à menor mudança já começam a ver catástrofes e apocalipses,
só lhes resta uma coisa a fazer: começar a amadurecer, para não chegarem verdes
à colheita de Deus.(visite os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
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