quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A LEI DO CÃO

Prof Eduardo Simões

         Ano de 1968, duas torcidas, só de rapazes de classe média do Colégio Cearense, em Fortaleza, do Ensino Médio, se xingam mutuamente por causa de um jogo de futebol de salão. É mais de meio-dia, os professores já foram embora. De repente, as torcidas descem das arquibancadas e avançam uma contra a outra, interrompendo o jogo. Uma grande luta vai acontecer, quando então alguém grita: “o irmão Valentim vem aí!” Imediatamente os dois grupos voltam aos seus lugares, a tempo de ver a silhueta esguia do famoso professor, avisado por alguém, apontar ao longe.
         Setembro de 2014, uma adolescente de 13 anos é barbaramente espancada, por ser “bonita”, numa escola de Sorocaba, vindo a perder dois dentes, após ter seu rosto golpeado com violência contra um cimentado, por outra adolescente. Durante esse absurdo, outros alunos fizeram um círculo, para impedir que outros tentassem parar a covarde agressão. É comum, na sala dos professores, ouvir colegas dizendo que, se virem briga de alunos saem de perto, seja por medo de apanhar também seja por receio de represálias por parte das famílias dos envolvidos. “Eu chamo a direção!”
         A que ponto chegamos! Na década de 60, quem apenas ofendesse a um professor seria imediatamente submetido a rigorosa punição, e, dependendo da gravidade da ofensa, podia acabar, junto com os pais, no Juizado de Menores, que todos temiam. Nem sempre, é verdade, havia justiça, não era perfeito, mas alunos e professores estavam seguros, e o índice de violência nas escolas era irrelevante.
         A desconstrução dessa comunidade pacífica começou com o esvaziamento da figura do professor, iniciado no regime militar e aprofundado na suposta Nova República, para dar alguma justificativa ao discurso pueril da esquerda, de que toda autoridade é autoritarismo, absorvido por burocratas oportunistas e intelectuais novidadeiros, formados em universidades estrangeiras, longe da realidade da qual se tornavam “especialistas”.
         Não faltou sequer a criação de neologismos pomposos, como “protagonismo juvenil”, tudo para dizer que a entrega da escola aos alunos nos faria evoluir para o melhor dos mundos. O Cândido brasileiro, em seu devaneio revolucionista, achou que poderia decretar a maturidade psicoafetiva dos indivíduos da mesma forma como se antecipa a maioridade política, no apertar de um botão no Congresso Nacional. Mas a realidade sempre se impõe, e hoje vemos que o esvaziamento da autoridade do professor representa o esvaziamento do seu poder de mediação e equilíbrio nos conflitos, sem o qual a escola se torna o lugar mais perigoso que existe para crianças e jovens, em nossa sociedade.

INSENSATEZ DEVOTA

Prof. Eduardo Simões

         Não tenho a menor intenção de acompanhar, pela TV, o vale tudo em que se tornou a atual campanha à presidência, mas pelo que eu pude ler, reproduzido em diversos sites de notícias, a desconstrução da última candidata pela atual presidenta, chega às raias da baixaria e da mentira mais vil. Mas, para a surpresa dos que ainda têm alguma esperança que algo vá dar certo, essa estratégia reforçou os índices da autora delas junto ao eleitorado, em algumas pesquisas. Está aberta a senda para as futuras campanhas presidenciais no país: baixaria, muita baixaria.
         Lembro-me de uma novela estrelada por Cristiane Torloni e Lilia Cabral, em que o autor da trama, contraposto à informação de quanto mais “barracos” havia, entre os principais personagens, a audiência aumentava, afirmou que o público podia ficar tranquilo, que mais e maiores “barracos” estavam por vir. Enfim um povo cujo espírito se alimenta de escândalos.
         Agora sabemos qual é a origem e a manutenção desse gosto tão questionável entre a nossa população, e não nos admiramos mais disso, mas não deixamos de nos preocupar ao pensar de para onde isso pode nos levar. Já imaginaram campanhas eleitorais movidas apenas por acusações difusas, meias verdades, mentiras deslavadas, sem falar das eternas falsas promessas? Não precisa imaginar, basta ligar a TV.
         Há uma esperança, porém, para a candidata-alvo: o grupo atacante pode errar “na dose” e gerar o efeito contrário – o gosto pelo sadismo pode revelar uma identificação com a vítima, um certo masoquismo, presente no culto histórico dos mártires e dos coitadinhos pela nossa sociedade, como uma espécie de mecanismo de compensação, tanto mais inconsciente quanto mais graves e relevantes são as decisões a serem tomadas.
         Está ficando evidente que a vitória em uma eleição no Brasil depende da perfeição com que o candidato manipula dados pessoais à sua disposição, e a maestria com que ele ora agride ora pacifica com seus rivais, num jogo psicológico doentio e sem regras, orientado por supostos gurus da comunicação, os marqueteiros, sem qualquer outro compromisso que o de vender caro os seus conselhos. O que menos importa é a proposta política, o programa de governo, as soluções para os graves problemas que nos afligem, afinal tem gente demais sedenta pelo próximo escândalo, para se dar valor a essas ninharias. Alguém vai se manifestar?

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