quarta-feira, 15 de outubro de 2014

BRINCANDO COM FOGO (I)

Prof Eduardo Simões

         A revista especializada BBC History Brasil lançou um assunto polêmico em seu último número. No artigo intitulado a Lei da sobrevivência, a editora, Tatiana Santos lembra o papel dos chefes tribais africanos no comércio de gente expulsa daquele continente na condição de escravo, principalmente para o continente americano.
         Esse é, de fato, um tema tabu na nossa historiografia, pelo menos naquela que escreve os livros que formarão as cabeças das futuras gerações nas escolas, pois neles é regra comum ensinar que toda a problemática escravista africana se prende apenas à ambição da burguesia ocidental, de fato ambiciosa, e associada ao rei no processo de formação do estado nacional, impondo de fora para dentro, com violência irresistível, o estatuto da escravidão entre os africanos. Lembro-me até de um livro didático, que tinha uma gravura de uma mulher africana, escondida com umas crianças, observando europeus caçando gente no terreiro de sua aldeia.
         Os fatos, porém, não corroboram esta visão, e o que temos é que até o final do século XIX não era possível a europeus devassar o interior do continente africano sem a autorização do chefe local, e longe de fazer guerra indiscriminadamente contra povos africanos resistentes, ocasionando grandes perdas e resultados incertos, que tornariam o tráfico antieconômico, os europeus, até esse período preferiam negociar e aplicar o velho preceito de “dividir para governar”, sem falar que mesmo depois disso eles não puderam ignorar a dificuldade de controlar territórios na África, haja vista o massacre de todo um regimento inglês, o melhor exército de então, em Isandlwana, em 1879, pelos zulus, o massacre da guarnição de Cartum, pelos sudaneses, em 1885, e muitos outros.
         Diferente, porém, da editora não creio que isso se deva à necessidade de ocultar o racismo da nossa população, mas antes do desejo infantil de parecer politicamente correto, numa sociedade onde, tradicionalmente, a originalidade e o pensamento crítico são temidos. Mas não dá para ficar eternamente prisioneiro do medo, ainda que seja o de parecer politicamente incorreto...


BRINCANDO COM FOGO (II)

Prof Eduardo Simões

         Quanto mais assumimos a pretensa conduta de combate aos mitos, principalmente na história, mais os criamos, como se internamente ou inconscientemente soubéssemos que não dá para viver sem mitos, e por isso criamos outros para combater os antigos, esperançosos de com aqueles acabar com todos eles. É assim que surge a figura de Zumbi de Palmares, o campeão da luta pela liberdade contra a escravidão, mas que tinha escravos a seu serviço, da mesma forma que Tiradentes, o herói branco da independência, construído às pressas para uma República improvisada, ocultando a sua condição de bode expiatório, a nos fazer crer que nosso povo é racista e anda em busca de branqueamento.
         A tese de branqueamento parece-me semelhante ao título daquela peça de Nelson Rodrigues: Bonitinha, mas... porque parte principalmente da opinião de brancos ricos e barões do café, que, por sinal, também impuseram enorme resistência ao casamento de suas filhas com os “galegos” e “carcamanos”, brancos, mas pobres, e portanto merecedores de termo tão depreciativo. Quantos ricos e barões do café havia no Brasil? Poucos. Quantos estariam dispostos a conviver amigavelmente com imigrantes europeus pobres, só porque eram brancos? Menos ainda. Esses homens são numerosos o bastante para ser considerados representantes da sociedade brasileira?
         Resta intelectuais como Oliveira Viana, Roquette Pinto, Nina Rodrigues, etc. escrevendo sobre eugenia em um país com 80% de analfabetos em edições de mil a dois mil exemplares. Quantos dos escassos leitores desses intelectuais concordavam com tudo o que eles diziam a respeito da raça brasileira? Muito mais impactantes do que eles foi Gilberto Freyre, por exemplo, dizendo justo o contrário.
As teses de branqueamento não passam de solilóquios de uma elite tão isolada como não representativa do povo brasileiro, que, mouco para essas arengas estrangeiras, se misturava, e ainda se mistura, na salada ou no laboratório racial em que se tornou esse país, fazendo com que, no limite dessa questão, se chegue a abençoar a escravidão que trouxe gente tão bonita, quanto inteligente e forte de terras tão longínquas, que de outra forma não teria vindo. Essa é uma de nossas grandes tragédias...


BRINCANDO COM FOGO (III)

Prof Eduardo Simões

         Mas um dia uma esquerda, tão politicamente correta no discurso quanto incorretas nos atos, chegou ao poder e fez-nos crer que éramos um povo racista, e que, da mesma forma que os americanos, que andavam mutilando e enforcando negros em praças públicas, impedindo-os, por causa da pele, de freqüentar universidades e o serviço público, precisávamos instalar uma política de cotas e medidas compensatórias de caráter racial, etc. O encanto fora quebrado, e o paraíso racial em que brancos e negros se encontravam no Brasil, eficaz ou não, fora quebrado, e brancos e negros descobriram-se nus, recobertos apenas pela vergonha do ato criminoso, no caso dos primeiros, ou do ressentimento por fazerem papel de bobos por todo esse tempo, no caso dos últimos. O ovo da serpente estava maduro. Só faltava um motivo para descascá-lo: aconteceu...
         Um jogo de futebol como outro qualquer, no estádio do Grêmio de Porto Alegre. A torcida, querendo desconcentrar o goleiro Aranha, do Santos, dá vazão a habitual falta de educação das torcidas brasileiras e começa a xingá-lo com injúrias racistas, aparentemente por este estar também se esmerando muito na “cera”. Uma moça loura é captada pelas câmaras, justo no momento fatídico: “ma-ca-co!”, imagem passada e repassada uma infinidade de vezes, até as pessoas decorarem. O goleiro, ofendido ou aproveitando-se do momento, “futebol é guerra!”, dizem, reclama ao juiz. A moça do momento infeliz é identificada, e sobre ela, sem qualquer consideração pelo contexto, é jogada a pecha de “racista”, embora quem assista ao teipe do jogo verá que no meio da torcida havia rapazes negros também dizendo ofensas contra Aranha.
         O fato ganha dinâmica própria.  Autoridades e instituições brasileiras, com a delicadeza de um elefante no estro, começam a agir. A imprensa faz o carnaval de sempre, seja para explorar a falta de assunto seja para ocultar a inabilidade em explorar assuntos que realmente interessam; A CBF, uma das entidades mais desmoralizadas do país, age: expulsa o Grêmio da Taça Brasil, jogando a gasolina da paixão clubística no fogaréu de ressentimentos raciais. O que o clube tem a ver com a falta de educação de seus torcedores?
         Nada há tão ruim que não possa ficar pior. A casa da “preconceituosa” é incendiada. Crime de ódio racial, movido por negros ofendidos ou influenciados pelo clima criado pela imprensa? Ódio de torcedores, brancos e negros, pelo fato dela ter causado esse prejuízo ao clube? Aranha erra; diz que perdoa a moça, mas não quer se encontrar com ela nem retira a queixa, ou seja, não perdoa. Os gaúchos também não, como ficou demonstrado no jogo seguinte: o Rio Grande não é mais seguro para ele. Ninguém para orientar esses dois imaturos, cabeças de vento? Se isso tivesse acontecido no Brasil antigo, os sábios, de ambos os lados, já estariam esvaziando essa celeuma desnecessária, dizendo com um sorriso malicioso: “isso é paixão reprimida!” Quem garante que ela, torcedora estusiástica, não tenha se sentido desconfortavelmente atraída pela atuação do goleiro, que frustrava o seu time de coração, e a “ofensa” não saiu como um mecanismo de defesa?

         Há anos que estamos fabricando um racismo intolerável, e ainda inexistente, para o Brasil. Há quarenta anos um conhecido nosso, por acaso negro, e certamente um fracassado, vivia repetindo: “O Brasil, para os negros, é pior que a África do Sul (do Apartheid!)”, e é óbvio que ele nunca fez qualquer esforço de ir para lá, sequer como turista, mas, infelizmente, o número de pessoas que está apostando nesse  desatino é cada vez maior. Quem ganhará com isso?

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