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terça-feira, 28 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
CAVALEIROS DO APOCALIPSE
Prof Eduardo Simões
Duas
coisas chamaram-me a atenção às vésperas do segundo turno: a grande quantidade
de pessoas de classe média, as mais instruídas, que, no facebook, clamavam
contra o “comunismo”, temendo, pela ascensão do PT, da mesma forma que a classe
média de 1964, usando do mesmo argumento, atraiu sobre o país uma das mais
violentas ditaduras de nossa história, que essa mesma classe média, vinte anos
depois, pediria nas ruas, com muito mais clamor, que acabasse. Outra coisa que
me impressionou foram as declarações, em áudio, da presidente da SABESP, Dilma
Pena, e do diretor metropolitano da empresa, Paulo Massato, na Assembleia
Legislativa de São Paulo.
Segundo
Dilma Pena, há muito tempo que se sabe da gravidade da crise hídrica em São
Paulo, e que se fazia urgente a conclamação do povo para economizar água, o que
não foi feito, segundo ela, por “orientação superior”. Ora, o escalão mais
superior da SABESP é justo o governo de São Paulo, sócio majoritário da empresa,
portanto tal determinação só podia ter partido dele, e nós sabemos porquê
motivo. Já Paulo Massato é mais direto, e diz que, se as chuvas esse ano forem
poucas, vai ser preciso “dar férias” a milhões de paulistas, para que se
dirijam às cidades litorâneas atrás de água. Um apocalipse tipicamente
brasileiro.
Agora
vem a questão: o que é pior, uma doutrina ultrapassada, decadente, defendida
por meia dúzia de gatos pingados dentro do PT e em outros partidos de esquerda,
ou o arrasto de milhões de pessoas ao desespero causado pelo caos de uma gestão
que só pensa em dinheiro? Mesmo porque se se concretizar o temor do senhor
Massato, para esses milhões de desesperados que virão essa ideologia decadente
e idiota vai parecer verdade revelada. De quem será a culpa se isso acontecer?
Do PT? Da esquerda? “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
À classe
média paulista eu bem que gostaria de poder dizer: “pensem melhor”, mas só
posso dizer: “orem, orem muito, principalmente por você e pelos seus”, pois
tudo indica que a hora de pensar e de agir já passou, e foi perdida.
Quem quiser ouvir o áudio da presidente e do diretor da
SABESP vá para
Lei o texto abaixo e entenda o porquê dessa crise de
água.
Sabesp
distribui até 60% dos lucros aos acionistas durante governo Alckmin
Estimativas apontam que, entre
2003 e 2013, cerca de um terço do lucro líquido total da Sabesp foram
repassados aos acionistas
Em
1994, com a justificativa de que assim conseguiria mais dinheiro para investir
em abastecimento de água e tratamento de esgoto, a Sabesp (Companhia de
Saneamento Básico do Estado de São Paulo) decidiu se tornar uma empresa de
capital misto. Duas décadas depois, 50,3% de seu controle acionário se
encontram nas mãos do Estado, enquanto 47,7% das ações são de propriedade de
investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%).
Embora
o estatuto social da Sabesp determine que os acionistas podem receber 25% do
lucro líquido anual da empresa (relação que o mercado chama de payout), a
concessionária chegou a bater recordes em distribuição de dividendos durante o
governo Geraldo Alckmin (PSDB). Em 2003, por exemplo, ano seguinte à vitória do
tucano nas urnas, 60,5% do lucro líquido da Sabesp foram parar no caixa de
acionistas. Na verdade, desde a sua entrada na bolsa de valores, em 2002, a Sabesp
nunca registrou payout inferior a 26,1%.
Estimativas
feitas com base nos dados divulgados em março de 2014 pela Diretoria
Econômico-Financeira e de Relações com os Investidores apontam que, entre 2003
e 2013, cerca de um terço do lucro líquido total da Sabesp foram repassados aos
acionistas. O montante é da ordem de R$ 4,3 bilhões, o dobro do que a Sabesp
investe anualmente em saneamento básico.
http://jornalggn.com.br/sites/default/files/u16/lucro_liquido_2.jpg
Negócio rentável
No
meio financeiro, comprar ações da Sabesp virou um negócio rentável. Desde que
se lançou no mercado de capital, a companhia colocou papéis à venda em duas
ocasiões. A primeira em 2002, com prospecto inicial totalizando 3,364 bilhões
de ações ordinárias na oferta brasileira, e 1,252 bilhão no exterior, na forma
de ADSs (American Depositary Shares).
Naquele ano, cada lote de mil ações ordinárias
saiu por R$ 110 aos investidores institucionais e, no caso de desconto da
oferta de varejo, R$ 104,50. O preço das ADSs ficou em US$ 11,22 cada –
equivalente, na época, a R$ 27,50. A venda dessas ações no mercado rendeu R$
506,9 milhões. Segundo o prospecto da oferta inicial, os recursos foram
encaminhados em sua totalidade aos cofres do governo do Estado.
Em
2004, a Sabesp retornou ao mercado com oferta de 5,273 bilhões de ações
ordinárias, equivalente a 18,51% do capital social da empresa, por meio de uma
distribuição pública secundária realizada simultaneamente no Brasil e no
exterior. Dessa vez, 3,841 milhões de ADSs foram para o exterior. O lote de mil
ações ordinárias saiu por R$ 113,47.
A arrecadação naquele ano atingiu R$ 598,2
milhões. O governo do Estado e a Companhia Paulista de Parcerias (CPP) – uma
sociedade de capital fechado controlada majoritariamente pelo Estado que tem
por objetivo “viabilizar a implementação do Programa de Parcerias
Público-Privadas (PPP)” – ficaram com os recursos.
No
total, pelo menos R$ 1,11 bilhão foi parar no caixa do governo estadual a
partir da venda de ações da Sabesp em 2002 e 2004. A reportagem do GGN questionou
a Secretaria de Fazenda do Estado quanto aos investimentos que foram feitos com
esses recursos. A pasta remeteu as perguntas à Sabesp que, até o fechamento
dessa matéria, não se manifestou.
O
gráfico abaixo mostra o desempenho das ações da Sabesp no mercado desde a
entrada na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo). Os picos registrados
aconteceram em anos em que o lucro líquido da companhia de saneamento foi
bilionário: R$ 1,055 bilhão em 2007, seguido de R$ 1,911 bilhão (2012) e R$
1,923 bilhão (2013). O crescimento do lucro líquido puxa o aumento dos
dividendos, o que torna as ações da Sabesp mais atrativas. Mesmo em 2008,
quando a empresa teve lucro líquido de R$ 862,9 milhões, o payout foi de 34,3%.
A evolução das ações da Sabesp:
http://jornalggn.com.br/sites/default/files/u16/grafico_desempenho.jpg
Dividendos x investimentos
Se
comparado ao total de investimentos feitos pela Sabesp nos últimos 10 anos em
saneamento básico (aproximadamente R$ 17,3 bilhões), os lucros e dividendos da
companhia de capital misto não parecem tão exagerados, segundo avalia Alexandre
Montes, analista de investimentos ligado à Sabesp. De acordo com ele, “em
2012, o negócio da Sabesp gerou um caixa de R$ 4,3 bilhões apenas com a venda
de serviços de água e tratamento de esgoto. Desse montante, ela investiu na
aquisição de intangíveis cerca de R$ 2,8 bilhões”, afirmou.
“Já em 2013, dos R$ 4,5 bilhões gerados, R$ 2,3 bilhões
foram investidos. Do ponto de vista analítico-financeiro, a distribuição de
rentabilidade para os acionistas está dentro dos padrões. Foram R$ 499 milhões
em 2013 e R$ 579 milhões em 2012”, apontou o
associado da Lopes Filho Consultores de Investimentos.
Atualmente,
cerca de 28 milhões de pessoas no Estado são abrangidas pelos serviços de
abastecimento de água da Sabesp. Aproximadamente 73% dos clientes são moradores
da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), cinturão abastecido pelo
Cantareira, sistema protagonista de uma crise iminente de fornecimento de água,
já que opera, desde o início de maio, com menos de 11% de sua capacidade.
O
governador e a Sabesp sustentam que o problema de abastecimento na RMSP
acontece principalmente por falta de chuva. Na tentativa de evitar uma crise no
segundo semestre, Alckmin anunciou algumas medidas emergenciais. Entre elas, a
aplicação de multa em quem aumentar o consumo de água (ainda em análise pelos
órgãos competentes), o uso das águas das bacias do Guarapiranga, Alto Tietê e,
agora, Billings, para suprir a demanda paulista, além de uma obra de R$ 80 milhões
para captar o volume morto do Cantareira.
A conta que não fecha
Ao
longo de 10 anos da abertura de mercado e negociação de papéis na bolsa de
valores americana, a Sabesp valorizou 601%. Na BM&FBovespa, a valorização
foi de 427% no mesmo período, 2002 a 2012. Ou seja: em uma década no chamado
“mercado futuro”, o valor da companhia saltou de R$ 6 bilhões para R$ 17,1
bilhões.
Os
investimentos em saneamento básico, por sua vez, subiram de R$ 594 milhões em
2003 para R$ 2,7 bilhões em 2013. Nos últimos cinco anos, a companhia hoje
presidida por Dilma Pena investiu R$ 11,9 bilhões em distribuição de água e
tratamento de esgoto, e pretende investir mais R$ 12,8 bilhões entre 2014 e
2018.
http://jornalggn.com.br/sites/default/files/u16/investimentos_2.jpg
Para
especialistas em gestão de recursos hídricos e saneamento básico ouvidos
pelo GGN, a questão que não quer calar é a seguinte: como
uma empresa como a Sabesp, com tanta rentabilidade no mercado e com
investimentos bilionários em saneamento básico, não reduziu, nos últimos anos,
a dependência do Sistema Cantareira?
O
presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio
Ambiente do Estado de São Paulo), Rene Vicente dos Santos, avaliou que a Sabesp
tem investido maciçamente no crescimento do número de clientes, com o objetivo
de ampliar o lucro com serviços de distribuição de água e tratamento de esgoto,
deixando de lado novas tecnologias.
Ele apontou, por exemplo, que a Sabesp mantém
tubulações que datam de 30 anos, e que ainda perde 25% da água que produz. Ou
seja: a empresa ainda assiste à perda de 25% de receita, apesar dos
investimentos feitos para melhorar essa situação.
“A Sabesp tem investido nos últimos anos na ampliação da
rede, mas a primeira coisa que faz com o lucro é garantir a rentabilidade dos
acionistas. Ela aplica em melhorias, mas prefere direcionar os investimentos
para onde consiga mais arrecadação ao final do processo – ampliação e rede,
captação e tratamento de esgoto”, ponderou.
Poucas opções para driblar a falta d’água
Já
na avaliação de Ricardo de Sousa Moretti, professor da pós-graduação em
Planejamento de Gestão de Territórios da Universidade Federal do ABC, “o
lucro da Sabesp indica que ela poderia ter feito um investimento muito maior em
saneamento básico”, não só em volume de recursos, mas em aproveitamento de
estudos e metas elaborados há pelo menos uma década, que apontam ser
emergencial a busca por novas fontes de água para São Paulo.
Segundo Moretti, a Sabesp desenvolveu uma
política voltada para lucros obtidos com a construção de grandes obras, como
estações de tratamento – hoje, são mais de 214 espalhadas pelo Estado – “mas
esqueceu que para funcionar, é preciso ter um sistema capilar eficiente, que
leve água [da estação de tratamento] até em casa do cliente a partir do sistema
arterial, que são as redes coletoras. Essa parte arterial não foi feita. Temos
estações prontas, mas o esgoto não chega nelas. Ou seja, a Sabesp criou uma
política insana, de grandes obras de engenharias, e não de gestão de águas”,
criticou.
A
“política insana” da Sabesp, ainda de acordo com Moretti, também implica na
condução de águas sujas a mananciais que servem de reservatório para a Grande
São Paulo. Caso da Bacia da Billings, que recebe água que lava a região do rio
Pinheiros quando há enchentes. O professor destacou que embora a Sabesp retire
mais águas do braço Rio Grande para suprir a demanda do Cantareira, a represa
situada na região do Grande ABC já trabalha perto de sua capacidade
máxima. “O certo seria ter construído mais estações de tratamento no
local, mas isso não foi feito”, lembrou.
“Uso da Billings é improviso ao sabor da crise”
O
coordenador do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente do Consórcio Intermunicipal
Grande ABC, João Ricardo Guimarães, classificou o anúncio de Alckmin sobre o
uso da Billings como “improviso de soluções”. “Se isso era possível
[usar a Billings para diminuir a dependência do Cantareira], por que não foi
planejado e preparado há alguns anos? Por que o reservatório da Billings não
abastece um número maior de pessoas há mais tempo? Por que fazer isso agora, ao
sabor da crise?”, indagou.
Para
os especialistas, o governo Alckmin só tem duas alternativas para evitar uma
crise no fornecimento de água após a Copa do Mundo. A primeira é rezar para que
chova acima do patamar comum aos próximos meses, de modo que os reservatórios
do Cantareira ganhem fôlego. A segunda é transferir águas da bacia do Rio
Paraíba do Sul, de gestão federal, para contemplar a demanda paulista. Uma
tarefa difícil, já que o governo do Rio sinalizou que a iniciativa pode
comprometer o abastecimento de 10 milhões de pessoas só na Capital.
Fonte: Jornal GGN
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sexta-feira, 24 de outubro de 2014
VOTO DE OURO
Prof Eduardo
Simões
Justo quando parecia que a oposição
estava tomando pé, veio uma maré e a envolveu. Mas alguém não dúvida que ela
não vá se afogar?
Aécio pegou muito pesado com a
presidenta, que, esperta, deixou os ataques mais grosseiros para a sua equipe,
enquanto o outro, açodado ou imaturo, partiu, ele mesmo, para a rinha, sofrendo
as consequências. Aécio esqueceu que a sociedade brasileira é muito machista, e
por mais que os anos passem, eleições junto, eles jamais verão a Dilma, ou
qualquer outra, como presidenta ou candidata, antes de mulher. Aécio, portanto,
agrediu uma mulher e uma mãe! Nada mais horrível, considerando que o brasileiro
busca no espaço público compensar as ofensas, tiros e tapas que ocorrem no
ambiente doméstico.
Mas eu creio também, que boa parte
da perda de Aécio, que alguns chamam “desidratação”, se deve ao fato de já ter
chegado à classe média a desconfiança de que o mais poderoso estado da
federação está à beira do colapso hídrico, com conseqüências inimagináveis, além
das imagens dantescas da carência de água, que já começam a aparecer nos meios
de comunicação, e que deve, fatalmente, arrastar o resto do Brasil junto. Como
evitar a responsabilização do grupo de Aécio?
Nesse cenário, a postura do
governador de São Paulo e de seu entourage, só faz piorar as coisas ao negar
peremptoriamente o sinistro climático, e perseguir quem fala dele... eu não
disse nada! O eleitor já deve estar se perguntando: e se eles usarem do mesmo
artifício para os casos de corrupção no seu futuro governo, como aconteceu com
o caso da compra de votos da reeleição, com a Pasta Cor de Rosa, com a CPI da Máfia
do Apito, que, segundo o jornalista Juca Kfouri, teve na omissão do senador
Aécio elemento fundamental para o seu arquivamento, etc.? Não dá para negar que
a punição para os crimes de colarinho branco só começaram nos governos do PT.
Noutras palavras: se votar na Dilma
você erra, por não querer dar cobro à atual corrupção, se votar em Aécio erra, pois
será leniente com crimes futuros, pelo menos os grandes, se votar branco ou
nulo ou não comparecer, você também erra, por mostrar desinteresse com o futuro
do país. Por conseguinte. Seja qual for a sua decisão nesse domingo, dia 26,
você estará certo.
(visite os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
SENTIR
PODE, FALAR NÃO
Prof
Eduardo Simões
Há algum tempo vemos algo insólito no
mais importante estado da Federação: notícias, fartamente decoradas com fotografias,
imagens de vídeo, etc., dando conta que existe uma grave crise hídrica no
estado, inclusive com severas faltas de água já acontecendo em algumas regiões,
e o governo do estado afirmando categoricamente que está tudo bem, que não há
racionamento, mas apenas “redução da oferta”.
Essa semana, inclusive, ele foi bem
mais longe, chegando a mandar um comunicado “duro” a Ban Kin Moon, o Secretário
da ONU, por causa de uma funcionária da Organização, que, estando no estado, notou
e notificou a falta de alguma coisa, sem deixar de apontar a mais provável das
causas: a inépcia de gestão da empresa concessionária de água, logo isso em um
governo que se gaba de seus “choques de gestão”. O governador, segundo as agências
noticiosas, pôs dúvida a credibilidade da ONU, tudo bem em um país onde se nega
o direito de advogar a Joaquim Barbosa, por falta de idoneidade moral, enquanto
se mantém incólume o registro do condenado Zé Dirceu, chegando inclusive a
ameaçar de não comparecer à próxima Cúpula do Clima, em Nova York. Mais um
pouco e haveria guerra.
Internamente, dizem, que os reparos da
observadora têm fundamento, uma vez que a tal empresa concessionária deu lucros
deveras polpudos aos seus acionistas, talvez a custa de investimentos de
ampliação reservas e prevenção do sinistro atmosférico, mas também aqui não é
saudável falar sobre o assunto. O último que se atreveu foi o presidente da Agência
Nacional de Águas, ANA, dizendo que as bombas nas represas já estavam próximas
de bater no “lodo”. Iiiih! Um “ilustre” deputado do governo logo o chamou de “vagabundo”,
e um secretário da administração estadual disse que o tal presidente é que iria
para o lodo. O governador não disse nada, mas com certeza Narizinho Arrebitado
está muito constrangida.
Aos brasileiros, pois, que vierem a
esse estado e os próprios moradores, falo assim como que em código para evitar...
vocês sabem, devem cuidar para quando sentir sede pedir água, mas não dizerem
para quê.(visite os blogues construindopiaget.blogspot,com.br -- historiatexto...)
ISSO
AINDA NÃO ACABOU?
Prof
Eduardo Simões
Ficamos abismados ao ver e ouvir um
padre muito conhecido, de uma comunidade religiosa muito conhecida do Vale do
Paraíba, durante a homilia de uma celebração eucarística (!), afirmar
peremptório: “Eu não voto no PT! Eu não voto no PT”. Vá lá que eu também não
morro de simpatias por esse partido, em função dos últimos acontecimentos, mas
não julgo adequado que o santo espaço da missa, ainda mais o de uma homilia, um
momento para ensinar coisas nobres e elevadas a fieis já saturados da sujeira
natural do entorno, seja dedicado a atacar unilateralmente uma determinada
agremiação política, como se o baixo nível dos debates do segundo turno estivesse
contaminando as ideias desse ilustre sacerdote.
Tal posicionamento, além de
extemporâneo é desprovido de caridade e de discernimento, afinal deve existir
entre as milhares de pessoas que frequentam aquela comunidade, nos seus famosos
“acampamentos”, pessoas votam no PT. Isso é pecado? Será que naquela missa não
havia ninguém que votasse no PT? Com que perturbação no espírito, um
simpatizante desse partido não assistiria o restante da liturgia? Essa gente
pretende proibir aos católicos de votarem em determinados partidos? Sob que
justificativa? Vão associar esses partidos a emanações ou pactos “demoníacos”,
como o fazem, disparatadamente, a respeito de tantas coisas e costumes? Foi uma
agressão, aparentemente gratuita. Não se pode convidar uma pessoa para ir à
nossa casa e recebê-la com um bofetão.
A política desperta paixão, e a paixão
cega aos homens, por isso é fundamental que alguém mantenha a cabeça fria para
ter credibilidade como mediador, caso o conflito saia de controle, e ninguém
melhor para fazer isso, pelo menos até agora, do que o corpo eclesiástico da
Igreja Católica, posicionando-se neutra em relação aos partidos, mas engajada
na cobrança da ética ou da falta dela no comportamento público dos políticos,
independente de partido. Espero que a atitude desse padre não crie escola.
(visite os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
terça-feira, 21 de outubro de 2014
O
TRISTE FIM DOS COVEIROS DE POLICARPO
Prof
Eduardo Simões
Nunca entendi porque a Academia
Brasileira de Letras não aceitou incorporar Lima Barreto ao seu patrimônio
social. Segundo Francisco de Assis Barbosa, em sua biografia sobre o escritor, repugnava
aos acadêmicos o alcoolismo de Barreto. Talvez eles temessem que, tremelicante,
aquele viesse a quebrar a louça inglesa usada nos chá das cinco. Mas aí vem a
pergunta que não quer calar: se os marimbondos de fogo do Sarney puderam
entrar, porque Lima Barreto de fogo não pode.
O Brasil é um dos raríssimos países onde
se constituiu uma Academia só para promover, para ressaltar, o bom uso da
língua pátria, quando nem Portugal, o pai da criança, se deu a esse trabalho! E
para quê? Se hoje “doutores” e “mestres” formados em universidades estrangeiras
saturam a infosfera de recomendações, estudos, gráficos e o... e o... que mais
vier, afirmando categoricamente que errar é “lindo”, basta que a intenção de
quem se comunica fique clara, que exercícios de caligrafia anulam a personalidade
– o que é desmentido pela grafologia desde o século XVII – e outras coisas mais
sobre a “norma culta” que, pelo seu excesso de sabedoria, não ouso comentar
aqui.
O problema é que crianças assim
educadas têm professores, e esses professores precisam avalia-las, e eu sou um
deles. Como fazê-lo se o que elas escrevem ou dizem não faz o menor sentido.
Eis o que eu tenho detectado: não há mais qualquer distinção entre letra
maiúscula e minúscula, tudo é escrito com letra minúscula; quando se chega ao
fim da linha a palavra é simplesmente interrompida, não há a menor noção de
sílaba, “mérito” da Emilia Ferreiro e o seu letramento; não há mais o
espaçamento no começo do parágrafo, e sequer parágrafo, vire-se; acento? Só o
de sentar; etc. etc. Mas isso não é tudo! Como não há mais caligrafia qualquer
um escreve como quiser, e aí começa o trabalho mais pesado do professor:
entender que raio de sinal gráfico é aquele rabiscado a folha. Os profissionais
da educação, no Brasil, precisam, urgente, de um curso de criptografia.
Moral
da história, a universidade e as escolas de alfabetização, principalmente as
mais abandonadas e pobres desse país, transformaram a prestigiosa Academia
Brasileira de Letras em um elemento meramente decorativo, típico de sociedades
sem tradição e sem história, e, principalmente, sem respeito pelo seu povo, e
que compensa o abandono deste com permissões paternalistas, pois de nada
adianta cultivar boas regras de conduta literária nas altas esferas, se, nas
baixas, o que vale é o vale tudo.
Na entrada de Lorena há uma oficina
mecânica, há uma oficina mecânica na entrada de Lorena, com um detalhe: o
acento circunflexo de “mecânica”, não está sobre o primeiro “a”, mas sobre o
primeiro “c”, um erro que nem meu computador, uma máquina burra, permite que eu
reproduza, mas que para as “autoridades” educacionais de São Paulo está muito
bem. Acho que os imortais ainda não sabem de sua morte.
(viste os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
ESPERANÇAS AUDACIOSAS E TEMORES INJUSTIFICADOS
Prof Eduardo Simões
Certamente
que foi com um misto de perplexidade, angústia e euforia, dependendo do lado em
que se está, que pessoas nos quatro cantos do mundo receberam a notícia
proveniente do sínodo dos bispos em Roma, reunidos sob a temática da família,
anunciando uma mudança de postura da Igreja Católica no tratamento ao
homossexualismo.
Não se
trata de um recuo puro e simples da forte condenação das práticas homossexuais,
existentes na Bíblia, em inúmeras passagens como Lv 18,22. 20,13; Rm 1,27; sem
falar de uma possível referência em 1Cor 6,9. E para que ninguém tivesse
dúvidas de que a coisa era para valer, os Escritores Sagrados acrescentaram
pelo menos duas passagens exemplares: a destruição de Sodoma e Gomorra, justificada
imediatamente por Gn 19,5, e a quase extinção dos benjaminitas, iniciada por um
desejo desenfreado destes em “conhecer” o levita de Efraim (19,22), apesar dos
pedidos ingentes de seu hospedeiro (19,23), e que acabou redundando na morte da
mulher do viajante e na guerra que se seguiu.
Vista no
conjunto não há dúvidas: a condenação é clara. Mas aqui também pode se levantar
uma objeção de peso, pois a Bíblia foi escrita originalmente em um contexto, se
é que a pessoa não acredita que o texto foi ditado diretamente por Deus aos
ouvidos do hagiógrafo, como acontecia na Antiguidade, bem diferente do nosso, e
então é preciso que essas condenações sejam interpretadas no espírito e
costumes da época, que condicionavam fortemente a prática do homossexualismo.
E que
ambiente era esse? O homossexualismo estava fortemente vinculado aos rituais da
religião pagã tanto asiática como greco-romana, dos quais os judeus deviam guardar
distância, para evitar a “contaminação” de seus ideias religiosos, ainda muito
objetivos e pouco espirituais. Ora, tal contexto, hoje, não existe mais, e essa
questão deixou de ser algo de foro público e até nacional para se tornar algo
de foro privado, fortemente condicionado pela solidão do mundo contemporâneo,
principalmente, nos paraísos capitalistas das grandes cidades, onde o dinheiro
vale mais que as pessoas. Foi a partir dessa realidade que eu ouvi a famosa
declaração do Papa Francisco, voltando de sua viagem ao Brasil: “se uma pessoa
é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”
Tampouco
se sustenta mais a crença antiquada de que a pessoa homoafetiva é
necessariamente depravada, e só assume essa postura por “sem-vergonhice”. Existem
casais ou pessoas de preferência homossexuais que se tratam com respeito e dão
bons exemplos de convivência e urbanidade em sociedade, e muitos há que ainda
buscam a fé na Igreja e uma inserção mais plena na comunidade dos fieis, e que
nem sempre é acolhido com o devido respeito. Agora, se por ventura houver deles
que se comportem de maneira indigna, que sejam tratados da mesma forma que os
heterossexuais indignos.
Dessa
postura, preventiva e hostil nasce não poucas frustrações, sentimentos de
culpa, mágoas e ressentimentos que fazem essas pessoas, em sua revolta,
repudiar o mundo que lhe repudia, e que só lhe usa quando é do seu interesse,
com aconteceu com o grande matemático inglês Alan Turing durante a Segunda
Guerra, nascendo daí uma atitude de confronto ou defesa, que beira ao pecado
explícito e contínuo, devido, às vezes, da incompreensão e falta de caridade,
pasmem (!), da comunidade dos santos, que é a Igreja e seus fieis.
É contra
esse tipo de situação absurda que se levantam os bispos e o Papa Francisco, com
a anuência de Bento XVI, buscando compreender a realidade dessa gente, e não a
sua aprovação, recomendando uma atitude mais adequada, mais moderna e
espiritual por parte dos católicos. É também uma postura de humildade diante de
um mistério profundo, que não pode ser levado na base do ‘ou branco ou preto’,
‘ou tudo ou nada’, sob pena de arrancarmos o trigo junto com o joio, sem falar
que se trata de uma atitude pastoral, sem dúvida relevante, mas que nada muda
na teologia, na moral e na dogmática católica.
Os
tradicionais sinceros, creio, não têm nada a temer de mudanças indevidas que
acarretem deterioração mensagem e da fé cristã-católica, da mesma forma que os
homossexuais se iludiriam se vissem aí a aprovação explícita de sua opção
sexual, e que o que foi escrito não está mais valendo. Sempre valerá.
A Igreja não aprova, mas compreende,
respeita e está disposta a caminhar junto, e até advogar por eles junto ao
tribunal de Deus com atos e orações, como o faz por todos os seres humanos.
Agora aqueles que vivem enxergando fantasmas a cada momento, que se assustam
com tudo que foge aos padrões de sua espiritualidade estritamente secular e
sociológica, e que à menor mudança já começam a ver catástrofes e apocalipses,
só lhes resta uma coisa a fazer: começar a amadurecer, para não chegarem verdes
à colheita de Deus.(visite os blogues construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
sábado, 18 de outubro de 2014
MAL
OCIDENTAL
Prof
Eduardo Simões
No passado, sempre que algum conflito
se destacava pela sanguinolência entre povos africanos, eu ouvia de alguém a
expressão: “isso é herança do imperialismo... eles aprenderam isso com os
ocidentais”. Confesso que nunca vi muito sentido nessas expressões, pois sempre
tive muita dificuldade em vislumbrar anjos e demônios associados a grupamentos
humanos, que são, independente das circunstâncias, sempre... humanos. O resto é
ideologia barata, adquirida a custa de pouca reflexão. Entretanto ao ver as
cenas dramáticas envolvendo as recentes vítimas, reais ou potenciais, do ebola
na África, algo me chamou a atenção.
Os documentários sobre a vida selvagem
nos trazem o drama da luta pela vida na África, em toda sua majestade e
dramaticidade, sem miséria ou indignidade, com o seu final inevitável: a morte.
Aí há uma sabedoria. Sabedoria assimilada em milênios pelos africanos em geral,
que aprendem da natureza a inevitabilidade da morte e a aceitação, entre
natural e serena, da culminância de nossa vida. Mas não é isso que estamos
vendo na TV. Um homem, agonizando ou desfalecido, jaz abandonado sobre uma poça
d’água, um contaminado assoma uma feira livre, lotada de gente, multidões fogem
para lugares remotos, espalhando doença, outros matam médicos para evitar a
doença!
Algo mau ficou da presença dos europeus
na África, nesse último século e meio. Eles eram burgueses, burgueses
arrogantes, cheios de empáfia e certezas, e, acima de tudo, descrentes de Deus
e da natureza, a quem queriam corrigir. Sua visão de curto prazo, muito
utilitária, fazia com que eles vissem na morte um flagelo ou um sinal de
impotência humana, que deveria ser a todo custo postergada, quando não vencida.
Morrer cedo, significa não “gozar a vida”, a vida que fluía, na forma de
mercadorias, pelas portas das fábricas, ao custo da poluição e escarmento das
fontes naturais de vida. Uma vida que só era gozada de fato no interior de
mansões raras e exclusivas, para poucos colunáveis ou “fashion”.
Disso tudo ficou o medo da morte, e o
seu correlato, ao mesmo tempo contraditório e complementar: o medo da dor, física
ou moral (cultural), principalmente quando ela implica em perda daquilo que nós
nunca possuímos, o controle do futuro, que no desespero de seu aguçamento leva
vários a buscar a abreviação da vida, acorrendo para o que mais teme. A doença
não impossibilita a vida, mas a onipotência burguesa, e daí é melhor sair dela,
pois deixar de ser produtor-consumidor pleno, nesse mundo, equivale ao inferno
capitalista.
O medo da morte gera o medo da dor, da
qual se escapa pela busca da morte, que gera o medo da infecção, da doença, que
também causa o fim da solidariedade, do heroísmo, da paciência, etc. Tudo isso
muito ocidental, e nisso aqueles ideólogos tinham razão, e faz com que as cenas
de desespero e desumanidade vistas na TV, aparentemente tão distantes, nos
pareçam estranhamente familiares e ameaçadoras.
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TEMPOS AMARGOS (UM REPARO HISTÓRICO)
Prôs Eduardo Simões
A última
vez que vi Lauro de Oliveira Lima foi num avento internacional promovido pela
sua escola, A Chave do Tamanho, no Rio de Janeiro. Um simpósio de primeira
linha que contou com a presença de pesquisadores europeus e norte-americanos,
como o psicólogo piagetiano Hans Furth, com vários livros traduzidos no Brasil;
o filósofo suíço Thomas Kesselring, que escreveu uma das melhores biografias de
Piaget; Jacques Voneche, diretor dos Arquivos Jean Piaget, da universidade de
Genebra, etc.
Nesse
evento, eu assisti a palestra de um jovem professor da Federal Fluminense, se
ainda me lembro, e dele ouvi que os piagetianos, como Lauro de Oliveira Lima,
nada sofreram com o golpe militar, querendo reforçar uma tese muito comum de
uma certa esquerda fugaz, de que Piaget é um autor “burguês-liberal” no sentido
mais pejorativo possível desse termo, o único que essa gente conhece, e que eles
usam para tudo o que não conseguem entender ou têm preguiça de saber. Quanto a
mim, não preciso me justificar diante de um crítico tão desprovido de
informação quanto provido da audácia dos que ignoram, mas me emocionei pelo
professor Lauro, porque não foi isso que ouvi dele e de seus filhos.
Lembro-me
de uma conversa que tivemos, eu e minha esposa, com a filha do professor Lauro,
Ana Elisabeth, quando ela contou que logo após o golpe, o seu pai teria se
encontrado com Darcy Ribeiro, e lhe colocado francamente que o sonho de
revolucionar a educação brasileira acabara. Darcy, talvez em choque, continuava
apegado ao seu status de ministro da educação, e continuava fazendo planos,
como se nada tivesse acontecido. Pouco depois de deixarem o apartamento de
Darcy receberam um telefonema do próprio, preocupado porque havia homens
estranhos cercando o seu apartamento – prováveis agentes a serviço do golpe
militar, que sempre apareciam quando alguém estava para ser preso ou
assassinado, como aconteceu com Anísio Teixeira, Juscelino Kubitschek, etc. Lauro
e a filha foram à casa de Darcy, e saíram com ele, de carro, correndo pelas
ruas do Rio de Janeiro, para despistar os agentes, até que, seguros, o deixaram
na casa de um amigo, de onde partiria para o exílio; o mesmo destino que mais
tarde sofreu outro grande mestre da educação: Paulo Freire. Lauro recusou-se a
sair do Brasil, mesmo porque não havia jeito de ele entrar num avião.
A
continuação dessa história eu ouvi quando fui com ele ao Colégio Agapito dos
Santos, em Fortaleza. Ele contou-nos, a mim e a vários professores da escola,
uma longa história, onde tudo começou com o pedido do prefeito de sua cidade
natal, Limoeiro do Norte, para que ele autorizasse o uso do seu nome no grupo
escolar do município com seu nome, ele relutou: “eu ainda tô vivo, pode ser que
lá na frente não dê pra que preste”, contou-nos sorrindo, mas no final concordou.
Quando
estourou o golpe, ele resolveu vir com a família do Rio para o Ceará, “nós
esperávamos que o Arraes fosse resistir”, e tomou o caminho pelo interior do
país, fugindo da vigilância dos grandes centros no litoral, uma viagem que,
segundo ele, durou um mês. Mas foi em vão, pois quando ele chegou Arraes já
tinha sido preso, e tudo estava perdido, tendo então buscado refúgio em
Limoeiro, com a sua parentela. Certo dia resolveu dar uma passada no grupo
escolar que tinha o seu nome, bem a tempo de ver homens, numa escada, retirando
a placa com o seu nome. Sabem como é promessa de político. Nesse momento ele
passou a mãos sobre a cabeleira e disse, rindo nervoso: “eu viajei cinco mil
quilômetros só pra ver isso!”
Nesse
período, ele estava em minha casa e nós ficamos sabendo que Paulo Freire estava
em Fortaleza, participando de um evento na Faculdade de Pedagogia da Federal do
Ceará (UFC). Ele ficou indócil, e queria de todo custo ir lá, rever o amigo de
velha data. Fomos. Quando chegamos, Paulo estava sentado à mesa, e ao ver o
recém-chegado levantou-se imediatamente, e abraçaram-se emocionados. Ver
aqueles dois gigantes da educação brasileira ali, se abraçando, já de cabelos
brancos, vítimas de um regime odioso e odiento, foi, para mim, impactante, mas
percebi uma certa indiferença do auditório, e até hostilidade, à medida em que o
evento prosseguia e se acentuavam a diferença na postura pessoal dos dois
educadores, porque politicamente defendiam os mesmos ideais, e as pessoas nem
notaram: Paulo sempre muito calmo, professoral, quase paternal, ou, na
linguagem atual, politicamente correto, enquanto Lauro se mostrava provocador
como sempre, politicamente incorreto, um profeta bíblico, e um profeta bíblico
só pode suscitar um sentimento: ou adesão completa ou repulsa completa. Lauro
foi rejeitado.
No dia
seguinte, passei na faculdade, para ver o impacto do acontecido. Havia um mural
com várias fotos, em nenhuma delas aparecia Lauro de Oliveira Lima. Um dos
maiores acontecimentos da educação brasileira, que tão cedo não se repetirá,
com homens de tão grande envergadura, foi solenemente ignorado, com o agravante
de que Lauro era gente da casa, os cearenses o repeliam pela segunda vez. Mas
que fazer quando as organizações estudantis são teleguiadas por grupos
políticos mais estreitos que a ponta de um alfinete, e as pessoas só querem
ouvir o que lhe soa bem aos ouvidos, que reforça aquilo que elas já acreditam?
Um autêntico piagetiano jamais faria isso, pois estaria traindo o conceito de
crescimento a partir do binômio equilibração-desequilibração, descoberto por
Piaget. A ditadura estava sendo derrotada nas ruas, mas continuava incólume na
cabeça de estudantes e professores, daquela elite acadêmica.
Depois veio
a prisão, numa cela do 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza – Elisabeth
falou-nos que quando passavam diante do quartel o filho mais novo de Lauro
dizia: “olha a casa do papai!” – os inquéritos por “subversão”, a aposentadoria
compulsória miserável, com sete filhos, sem falar que a continuidade dos
processos e o clima em Fortaleza, “as pessoas quando nos viam, mudavam de
calçada, para não falar conosco”, forçaram a família a ir para o Rio, onde
enfrentaram mais pobreza e humilhação, morando de favor na casa de parentes.
Nessa época, o professor escrevia seus livros sentado em uma cama, com uma
máquina de escrever sobre as pernas, depois de passar vários dias em estado de
choque. A fibra nordestina falou mais alto, e a família venceu.
Certa
vez levei-o para casa de praia de minha irmã e o apresentei a minha mãe, que o
admirava, mas ele, eu creio, lembrando-se dos episódios do passado, com certeza
ele conhecia a família de minha mãe, e sabia que esta havia sido adepta do
golpe militar. E ele foi duro, fez umas observações “pesadas”, como sempre
fazia sempre que queria provocar o começo de um debate, ou uma conversa que não
fosse estritamente formal. Minha mãe aguentou firme, como uma boa anfitriã, e o
dia acabou em paz. Mas desse dia também guardo uma lembrança engraçada de uma
história que ele contou do atual reitor da UFC, que, passeando pelas ruas de
Roma, quando estudante, teria comentado: “que emoção, essas ruas onde Licurgo
pisou!”, ao que um amigo respondeu: “fulano, se Licurgo pisou aqui foi como
turista, porque Licurgo era grego”. Caerense não perde uma.
Mas não
era sempre em paz que acabavam as provocações do professor Lauro. Certa vez, no
auditório da Universidade de Fortaleza, numa mesa com vários reitores, ele
debochou tanto da situação, essa era a sua técnica preferida para ‘esquentar’
um debate, que um professor visitante, o italiano Domenico Battochio, tomando
as dores da instituição, deu início a um bate-boca memorável com ele. Quando eu
cheguei o ‘pau’ já estava quebrando, e eles se espinafravam reciprocamente em
termos tão eruditos que eu estaquei, sem saber se acalmava a situação ou se chamava
mais gente para ver e ouvir. Até minha esposa depois me questionou depois:
“porque você ficou parado?” Memorável! Memorável! Que saudade!
Anos
depois o Ministro Jarbas Passarinho afirmou que os militares cometeram um erro ao
perseguir o professor Lauro, seja porque pressentiram que as ideias deste nada
tinham de comunismo, a inteligência do professor jamais lhe permitiria entrar
num movimento tão estreito quanto esse, pelo menos naquele tempo, seja porque
os militares já estavam isolados demais e queriam aliados de qualquer lado, mas
o professor não caiu nesse canto de sereia, e aproveitou para alfinetar os
destruidores de nosso melhor momento educacional: “o problema atual da educação
no Brasil, disse ele após saber da fala do ministro, é de falta de neurônios,
afinal ela é gerida por um passarinho...”
As
pessoas, porém, mudam, podem melhorar. Pena que o professor Lauro não tenha
percebido o processo de mudança política, paulatina, de minha mãe. Tudo começou
com a morte do Marechal Henrique Teixeira Lott, em 1984. Quando ela ouviu o
jornalista na TV descrevendo a trajetória de Lott, sua defesa da constituição, da
legalidade, sua resistência à Oligarquia Militar, ela, que fora uma janista de
carteirinha, me disse: “eu não sabia que o Lott era tão bom (textual)”. E eu
respondi: “vocês [as pessoas da sua geração] foram enganados”. Ela ficou
calada, reflexiva. Suas mudanças continuaram até que ela se tornou
decididamente uma pessoa de esquerda, e pagou caro por isso, uma vez que sempre
convivera com ambientes e pessoas de matiz político inverso, e tão duro foi o
isolamento, para ela, que pode até ter abreviado a sua vida, levando-a à morte
em outubro de 1994, com 69 anos. Lauro morrerá em janeiro de 2013, com 92 anos.
O
professor Lauro, então, nada sofreu! Tolos sempre existirão, assim como as suas
tolices, tornadas públicas a pretexto de tudo e de nada, até como forma de
compensação de seu vazio intelectual. Cabe aos que não se cansam de pensar ou
de “dar para o que preste”, fazer com que o sacrifício dessa gente tenha valido
a pena.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
TODA
BONDADE SERÁ CASTIGADA
Prof
Eduardo Simões
Uma idosa diz, na televisão, que estava
descansando na sua varanda, quando um grupo de rapazes chamou-a do portão e,
dizendo-se representantes de uma instituição que cuida de drogados, pediram
donativos com uma máquina de cartão, “um deles chegou a chorar”, disse a
senhora. Por sorte o filho dela estava em casa e a salvou de ter seu cartão de crédito
clonado pelos jovens larápios, que fugiram. Mesma sorte não teve outra idosa,
que lamentava, no jornal regional, a perda de mais de 90 mil reais em um golpe:
“a gente passa décadas para acumular um patrimônio, para perder tudo em cinco
minutos”. A reportagem avisa: esse tipo de golpe está crescendo. No Brasil de
hoje, o mais aconselhável é se desapegar de tudo, a começar pela vida.
Semana passada e essa foram trágicas: começou
com uma chacina na Baixada Fluminense, onde o único sobrevivente tinha apenas 12
anos, e em Goiânia foi preso o assassino serial que já matou 15 mulheres, além
de vários moradores de ruas e homossexuais. O maior assassino serial da nossa
história, com forte predileção por mulheres, como se não bastasse e violência
doméstica que rotineiramente já atinge essas três categorias: velhos, mulheres
e crianças. Ai dos mais fracos.
Em que pese as conquistas notáveis, que
sempre nos pegam de surpresa durante a propaganda eleitoral, é forçoso
reconhecer que nesse assunto, o cuidado com o outro, em especial os mais vulneráveis,
nós estamos na contramão do mundo civilizado – é que nós somos originais em
tudo, inclusive no nosso conceito de civilização. Na China e no Oriente os
velhos são quase sagrados; no mundo Ocidental a máxima “mulheres e crianças primeiro”,
tem um forte apelo nas sociedades desenvolvidas, visível tanto nas telas como
na vida real – quase dois terços das pessoas que se salvaram no Titanic eram mulheres
e crianças. O papel mais bonito, porém, foi feito pelos passageiros da segunda
classe, onde 92% dos homens pereceram, contra apenas 14% das mulheres. Todas as
crianças dessa classe foram salvas. A primeira classe não fez feio: 67% dos
homens morreram, contra apenas 3% das mulheres. Das seis crianças da primeira
classe, uma morreu.
As principais e mais famosas cabeças
pensantes do país estão preocupados com a baixa taxa de crescimento da nossa
economia, com a perda de prestígio do Brasil nos fóruns internacionais, com o déficit
na balança de pagamentos, a desindustrialização (será que o Brasil vai
terceirizar o seu parque industrial para os chineses?), etc., mas mesmo reconhecendo
a importância desses temas, não podemos deixar de alertar que eles não são
muito quando comparados com o abismo da falta de valores coletivos e
civilizacionais, que se acumulam nas calçadas, pátios, salas e corredores de
nossas escolas, como um gigantesco sumidouro, se abrindo sob nossos pés, como o
vazio do PISA.
(visite os blogues: construindopiaget.blogspot.com.br - historiatexto...)
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
MUITO
PIOR
Prof
Eduardo Simões
Não dá para acreditar no que estou
vendo e ouvindo: um importante diretor das SABESP afirma, no Bom Dia Brasil
(16/10/14), que o “abastecimento de água [na grande São Paulo] está normal”,
quando segundos antes uma matéria mostrou o efeito devastador da seca em bairros
da periferia, um dos quais não vê uma gota na torneira há seis dias. Uma pobre
mulher, estressada, não consegue deter as lágrimas. Infelizmente isso é só o início
das dores, pois ninguém aqui faz ideia do quão devastador pode ser uma falta de
água prolongada; eu sei porque sou nordestino. E qual a razão desses
contratempos que teimam em contradizer o ilustre diretor? Segundo ele, o que
está havendo é “aumento de consumo”... Os paulistanos vão se afogar no seco. É
melhor parar por aqui.
Quando eu era jovem, embalado pelos
protestos da esquerda, na luta contra a oligarquia militar, ensinaram-me que o
grande inimigo do povo era a burguesia, o empresariado, que, desalmado,
atirava-se com fome ao pescoço dos operários a fim de sugar até a última gota de
seu sangue magro, desidratado pelo excesso de trabalho a gerar mais-valia para
o seu carrasco, e até hoje a esquerda saudosista, presente no Governo Federal,
vive farejando isso, embora de vez em quando mande beijinhos para o capital, e
nada de tchau-tchau.
Mas não foi isso o que eu vi na parte
mais importante da matéria, pelo contrário: um motorista de caminhão-pipa,
resolveu, por conta própria, levar um caminhão de água para a sua comunidade no
subúrbio, e o dono da empresa, ao invés de puni-lo, não só o apoiou como
arranjou mais caminhões para dar levar água gratuita àquela gente. O empresário,
bem jovem, apareceu encarecendo as pessoas de se ajudarem mais nessa crise, que
o governo estadual nega peremptoriamente.
Depois dessa matéria me convenci de
duas coisas: realmente nosso estado se aproxima cada vez mais de ser aquilo que
o humor dos brasileiros já consagrou: o Tucanistão; ao mesmo tempo em que ainda
podemos ter fortes esperanças no povo e nos empresários brasileiros. Já os
políticos...(visite meus blogues: historiatexto.blogspot.com.br - construindopiaget...)
ESTRANHA AVENTURA
Prof
Eduardo Simões
“Comprazo-me na lei de Deus segundo o
homem interior, mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei
da minha razão” (Bíblia de Jerusalém). Quem diria que essas palavras,
aparentemente sem sentido, escritas a quase dois mil anos por São Paulo,
descrevessem de forma perfeita a natureza humana!
Certa vez, ao entardecer, fui a uma
cabeleireira próxima à Capela da Sagrada Família, no bairro do Pedregulho. O
ambiente estava lotado, também não precisava muito para lotar o cubículo, onde
uma diligente senhora praticava o seu mister de levar adiante a herança de
Adão: “viverás do suor do teu rosto”. Para mal dos meus pecados, uma senhora um
tanto espalhafatosa, esperando alguém à porta da cabeleireira, começou a
dirigir-me elogios rasgados.
“Era só o que faltava, pensei, ser
incomodado por uma ‘velha louca’”. Minha primeira reação foi sair dali,
afastar-me, sendo, entretanto, tolhido ainda na intenção pelos insistentes
pedidos da senhora para que eu sentasse ao seu lado, em um banco. Além dos
elogios, que então eu achava inoportunos, tive que aguentar o ‘bafo da onça’
que ela mamou, mas, a minha criação e a minha fé cristã me diziam que não
havia, ainda, nenhuma razão para uma atitude mais firme, hostil, grosseira ou
excessivamente pundonorosa da minha parte.
E não deu outra; a velha começou com um
papo ‘brabo’, cheio de malícia e sei lá de quantas intenções, ao qual eu respondia
amigavelmente, como se ela estivesse sendo movida pelas mais puras intenções,
ficando estranhamente calmo, mesmo quando ela pousou uma mão sobre minha perna,
eu estava de bermudas. Não devolvi a gentileza.
De repente algo misterioso aconteceu, e
a mulher, perdendo aquela alegria superficial dos tolos, começou a dar sinais
de estar claramente incomodada, e, virando-se para alguém, disse sem mais:
“fulano, vamos embora daqui!” O fulano pediu-lhe que esperasse, pois alguém,
que eles esperavam, ainda estava com a cabeleireira, mas ela continuou,
balançando muito a cabeça, fazendo expressões faciais de quem é tomado por um forte
mal estar, a dizer: “vamos embora”. Pouco tempo depois foi, e... nem se
despediu.
E aí, curiosamente, tem início um outro
drama em mim, afinal a mulher não cessara, no início, de jogar meu ego pra
cima, dirigindo-me elogios, e eu quase que lhe disse: “espere aí, o papo tá
bom, mais um pouco e eu acredito!” Mas fiquei calado e um tanto incomodado pelo
que acabara de perder, ainda sem condições de aquilatar o ganho. Cortei meu
cabelo e voltei para casa, deixando às costas a silhueta clara, modesta, e ao
mesmo tempo imponente e serena da Capela da Sagrada Família, a destacar-se
contra o negrume da noite, como a dizer diante daquele drama humano: “tu te
inquietas e te agitas por muitas coisas, quando uma só é necessária".
(visite
meus blogues: historiatexto.bolgspot.com.br – construindopiaget...)
ESTÁ
FALTANDO ALGUMA COISA!
Prof.
Eduardo Simões
Em setembro de2011, nós vimos a uma das
jogadas mais geniais dos últimos tempos, feita por um jogador brasileiro em
gramados sul-americanos – em geral eles deixam o seu melhor futebol para a
Europa. O jogador Leandro Damião deu um chapéu invertido, uma “lambreta”, em um
zagueiro argentino, e, pegando a bola de primeira, encobriu o goleiro
adversário, quase fazendo o gol. Até os argentinos aplaudiram extasiados! Nós,
esperançosos, dizíamos: “está nascendo um novo craque”.
Outubro de 2014. Um lance filmado em
detalhe, sem nenhuma de dúvida: dentro da área do Criciuma, eu não disse Real
Madrid, Barcelona, Bayern, etc., Damião puxa a sua própria camisa, dentro da
área, para provocar um pênalti, justo no momento em que os jornais noticiam que
cada vez mais jogadores estão se denunciando ao árbitro, para evitar erros de
arbitragens ou vantagens desleais... na Europa, entre eles o campeoníssimo Miroslav
Klose. Eu fico pensando: se os jogadores brasileiros estão com esse nível de
enganação e deslealdade, como eles e os técnicos podem exigir, da forma que
exigem, que o juiz não cometa erros? Será que Damião não sabia que a partida
estava sendo televisionada?
Outra coisa que bombou na internet foi
a foto de uma senhora já madura, gente da qual sempre se espera o contrário,
tirando um selfie junto ao caixão de Eduardo Campos. Imediatamente essa foto
foi montada por “n” navegantes, que adicionaram a imagem dela, e seu maldito
celular, junto ao naufrágio do Titanic, à explosão das Torres Gêmeas, à Cristo
crucificado, ao desastre da Seleção, etc., ficando nacional e, quiçá,
internacionalmente marcada. Aposto que ela jamais pensou que uma coisa tão
“natural”, “todo mundo faz”, podia dar nisso. Foi uma lição? Temo que não.
Pessoas com esse tipo de atitude são
rapidamente classificadas pela expressão adjetiva vaga e abrangente de “sem
noção”, inclusive por outros que só não fizeram pior ainda porque não tiveram
oportunidade. O importante é curtir com quem foi idiota bastante para se expor,
mesmo sabendo que os que curtem hoje poderão ser curtidos amanhã, e o balão de
gás fétido da falta de juízo, ou de noção, só faz crescer.
Ninguém nasce com noção, todos somos
sem noção de nascença, quem nos dá a noção é o ambiente social, mediado pela
cultura, em geral introjetada em crianças e jovens por meio da educação, na
qual a escola tem, ou deveria ter, papel fundamental, ainda mais nos dias de hoje
onde a família abandonou seu dever parental, deixando os cuidados da prole a
professores sobrecarregados e sistemas indiferentes?
O sistema só tem um interesse: formar
mão-de-obra não-pensante e não-vivente para tocar, submissa, as máquinas que
movem o progresso de poucos. O homem não é mais a extensão da máquina, mas o
seu subproduto, e com ela deve parecer se não quiser ficar sem lugar na
sociedade. Só importa desenvolver a parte cognitiva para fazer bonito nos
exames nacionais e internacionais, e dar matéria para a eleição dos mesmos
políticos a revezar no poder, sem qualquer atualização que mereça respeito.
Enquanto a escola não levar a sério a
diferença entre o homem e a máquina, e não começar a trabalhar a parte afetiva
e a socialização das crianças, isso só vai piorar.
(visite o meus blogues:
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NADA
MUDOU
Prô
Eduardo Simões
O aprendiz de feiticeiro Inácio ‘Lula’
da Silva, especializado em beberagens mágicas, como aquela que pretendeu unir
os interesses da classe trabalhadora com os da direita corrupta, quando
Presidente do Brasil, resolveu, sem consultar as instituições republicanas
competentes, como é hábito entre os donos do poder no Brasil, perdoar a dívida
externa de vários países africanos, a pretexto de resgatar uma injustiça
histórica: a vinda forçada de milhões de africanos, como escravos, para
construir, com o seu trabalho, a nação brasileira.
A atitude de Lula até que mereceria
prêmio, mas entre as dívidas perdoadas estava a de países governados por
ditadores truculentos, inclusive um, o do Sudão, acusado de genocídio pela ONU
e com ordem de prisão internacional decretada!, o que torna tudo muito suspeito,
e faz a nossa convicção pender para outro tipo de justificativa não muito
declarada nem aclarada: fazer negócios com esses países, com aquele velho toque
da esperteza a que estamos acostumados.
Lula fez escola e sua filhota seguiu
pelo mesmo caminho, perdoando e reestruturando dívidas de vários países
africanos, inclusive aqueles governados pelos espertos de sempre, que desviam o
dinheiro dos empréstimos em seu benefício, enquanto o povo amarga a mais
absurda miséria e ignorância, como estamos vendo nesses episódios do ebola. A
sucessora não só perdoou a dívida com abriu de par em par as fronteiras para
supostos refugiados, sem qualquer critério ou controle sanitário, fazendo-nos
retroceder ao período anterior a 1850, quando uma torrente de africanos entrava
no país por contrabando, em portos clandestinos. Hoje entram pelo Acre se
dizendo haitianos. O passado, ainda não redimido, bate à porta.
O resultado não se fez esperar, temos
um suspeito de contaminação pelo ebola, e quer isso se confirme ou não, ficou
um aviso e uma denúncia, pois ele entrou por um aeroporto, os nossos postos de
fronteira mais vigiados. Se isso passa pelo aeroporto imagine-se o que não está
passando pela fronteira terrestre e nesse imenso litoral sem dono. A propósito,
entre os países beneficiados com esses surtos, desculpem-me o termo, de ‘bondade
presidencial’ estão quatro países já atingidos: Guiné, Nigéria, Senegal e Congo,
que tratam seus doentes do jeito que estamos vendo. Torraram nosso dinheiro,
abandonaram o seu povo, receberam o ‘nosso’ perdão, e agora nos mandam o
resultado de seus e de nossos desmandos.
Hoje faltam hospitais na África, como falta
no Brasil, e se falta vergonha na África, a gente ainda pode dá uma ‘mãozinha’.
Nós continuamos a importar para lá a nossa corrupção moral, enquanto eles
exportam para cá a sua desesperança.
(visite
o meus blogs: historiatexto.bogspot.com.br –
construindopiaget...)
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
O
INIMIGO SOMOS NÓS
Prof.
Eduardo Simões
Li um artigo do grande Ferreira
Goulart, onde ele comenta, estupefato, a audácia de um político muito
conhecido, que, num momento de desequilíbrio e esquecimento de sua notável
biografia, começou a propalar boatos absurdos, e por conta destes conclamou o
povo a uma massiva manifestação em frente à Petrobrás, contra aquilo que ele
mesmo inventou, que, como era de se esperar, não atraiu quase ninguém, além do
poucos que já habitam o gigantesco deserto que circunda esse homem.
Mais ainda causa-nos estranheza, o fato
de essa atitude muito assemelhar-se com a daqueles a quem esse notável político
muito combateu em passado recente: a Oligarquia Militar. Explico; entre os
militares, a rainha das manobras é a emboscada, quando, por meio de mentiras e
falsidades se induz o inimigo a crer em coisas que não existem, subestimando ou
superestimando as forças que vai enfrentar, causando-lhe a derrota. Os grandes
generais foram os melhores mentirosos. Essa intuição já era clara em Ésquilo,
dramaturgo grego, que escreveu: “em tempos de guerra, a primeira vítima é a
verdade”.
Isso é considerado normal pelas nações,
porque sempre se teve o inimigo como o estrangeiro, mas que fazer quando uma
elite transforma o seu povo, na sua totalidade ou a determinados grupos, em
inimigos, aos quais é lícito enganar, seja em nome da Doutrina da Segurança
Nacional, embalado pelo conceito de “inimigo interno”, seja para garantir
vitória na próxima eleição, embalado pelo conceito de “inimigo de classe”.
‘Tecnicamente’, nesse caso não há
mentira, nem perjúrio, nem crime, nem desonra, mas apenas, mas apenas
‘desinformação’, ‘contrainformação’, ‘sagacidade’, e mais um catatau de
eufemismos para justificar o que deveria ser injustificável, apresentados como
uma forma de patriotismo, seja em nome da nação, de uma classe, e até de um
grupo de supostos ‘iluminados’, apresentados como os mais capazes para dirigir os
destinos do eterno rebanho de zé povinho, ainda que de dentro de complexos
penitenciários. Os traficantes não fazem isso?
Aonde fomos parar? Desse pecado, nenhum
dos pretendentes, aparentemente, se isenta, e que ninguém seja louco de
desafiar os donos do poder à primeira pedrada, pois ao contrário dos que havia
no tempo de Jesus, os de hoje se especializaram em jogar pedras. E é cada
pedregulho!
BRINCANDO
COM FOGO (I)
Prof
Eduardo Simões
A revista especializada BBC History
Brasil lançou um assunto polêmico em seu último número. No artigo intitulado a Lei da sobrevivência, a editora, Tatiana
Santos lembra o papel dos chefes tribais africanos no comércio de gente expulsa
daquele continente na condição de escravo, principalmente para o continente
americano.
Esse é, de fato, um tema tabu na nossa
historiografia, pelo menos naquela que escreve os livros que formarão as
cabeças das futuras gerações nas escolas, pois neles é regra comum ensinar que
toda a problemática escravista africana se prende apenas à ambição da burguesia
ocidental, de fato ambiciosa, e associada ao rei no processo de formação do
estado nacional, impondo de fora para dentro, com violência irresistível, o
estatuto da escravidão entre os africanos. Lembro-me até de um livro didático,
que tinha uma gravura de uma mulher africana, escondida com umas crianças,
observando europeus caçando gente no terreiro de sua aldeia.
Os fatos, porém, não corroboram esta
visão, e o que temos é que até o final do século XIX não era possível a
europeus devassar o interior do continente africano sem a autorização do chefe
local, e longe de fazer guerra indiscriminadamente contra povos africanos resistentes,
ocasionando grandes perdas e resultados incertos, que tornariam o tráfico
antieconômico, os europeus, até esse período preferiam negociar e aplicar o
velho preceito de “dividir para governar”, sem falar que mesmo depois disso
eles não puderam ignorar a dificuldade de controlar territórios na África, haja
vista o massacre de todo um regimento inglês, o melhor exército de então, em
Isandlwana, em 1879, pelos zulus, o massacre da guarnição de Cartum, pelos
sudaneses, em 1885, e muitos outros.
Diferente, porém, da editora não creio
que isso se deva à necessidade de ocultar o racismo da nossa população, mas
antes do desejo infantil de parecer politicamente correto, numa sociedade onde,
tradicionalmente, a originalidade e o pensamento crítico são temidos. Mas não
dá para ficar eternamente prisioneiro do medo, ainda que seja o de parecer
politicamente incorreto...
BRINCANDO
COM FOGO (II)
Prof
Eduardo Simões
Quanto mais assumimos a pretensa
conduta de combate aos mitos, principalmente na história, mais os criamos, como
se internamente ou inconscientemente soubéssemos que não dá para viver sem
mitos, e por isso criamos outros para combater os antigos, esperançosos de com
aqueles acabar com todos eles. É assim que surge a figura de Zumbi de Palmares,
o campeão da luta pela liberdade contra a escravidão, mas que tinha escravos a
seu serviço, da mesma forma que Tiradentes, o herói branco da independência,
construído às pressas para uma República improvisada, ocultando a sua condição
de bode expiatório, a nos fazer crer que nosso povo é racista e anda em busca
de branqueamento.
A tese de branqueamento parece-me
semelhante ao título daquela peça de Nelson Rodrigues: Bonitinha, mas... porque parte principalmente da opinião de brancos
ricos e barões do café, que, por sinal, também impuseram enorme resistência ao
casamento de suas filhas com os “galegos” e “carcamanos”, brancos, mas pobres,
e portanto merecedores de termo tão depreciativo. Quantos ricos e barões do
café havia no Brasil? Poucos. Quantos estariam dispostos a conviver
amigavelmente com imigrantes europeus pobres, só porque eram brancos? Menos
ainda. Esses homens são numerosos o bastante para ser considerados
representantes da sociedade brasileira?
Resta intelectuais como Oliveira Viana,
Roquette Pinto, Nina Rodrigues, etc. escrevendo sobre eugenia em um país com
80% de analfabetos em edições de mil a dois mil exemplares. Quantos dos
escassos leitores desses intelectuais concordavam com tudo o que eles diziam a
respeito da raça brasileira? Muito mais impactantes do que eles foi Gilberto
Freyre, por exemplo, dizendo justo o contrário.
As
teses de branqueamento não passam de solilóquios de uma elite tão isolada como
não representativa do povo brasileiro, que, mouco para essas arengas
estrangeiras, se misturava, e ainda se mistura, na salada ou no laboratório
racial em que se tornou esse país, fazendo com que, no limite dessa questão, se
chegue a abençoar a escravidão que trouxe gente tão bonita, quanto inteligente
e forte de terras tão longínquas, que de outra forma não teria vindo. Essa é
uma de nossas grandes tragédias...
BRINCANDO
COM FOGO (III)
Prof
Eduardo Simões
Mas um dia uma esquerda, tão
politicamente correta no discurso quanto incorretas nos atos, chegou ao poder e
fez-nos crer que éramos um povo racista, e que, da mesma forma que os
americanos, que andavam mutilando e enforcando negros em praças públicas,
impedindo-os, por causa da pele, de freqüentar universidades e o serviço
público, precisávamos instalar uma política de cotas e medidas compensatórias
de caráter racial, etc. O encanto fora quebrado, e o paraíso racial em que
brancos e negros se encontravam no Brasil, eficaz ou não, fora quebrado, e
brancos e negros descobriram-se nus, recobertos apenas pela vergonha do ato
criminoso, no caso dos primeiros, ou do ressentimento por fazerem papel de
bobos por todo esse tempo, no caso dos últimos. O ovo da serpente estava
maduro. Só faltava um motivo para descascá-lo: aconteceu...
Um jogo de futebol como outro qualquer,
no estádio do Grêmio de Porto Alegre. A torcida, querendo desconcentrar o
goleiro Aranha, do Santos, dá vazão a habitual falta de educação das torcidas
brasileiras e começa a xingá-lo com injúrias racistas, aparentemente por este
estar também se esmerando muito na “cera”. Uma moça loura é captada pelas
câmaras, justo no momento fatídico: “ma-ca-co!”, imagem passada e repassada uma
infinidade de vezes, até as pessoas decorarem. O goleiro, ofendido ou
aproveitando-se do momento, “futebol é guerra!”, dizem, reclama ao juiz. A moça
do momento infeliz é identificada, e sobre ela, sem qualquer consideração pelo
contexto, é jogada a pecha de “racista”, embora quem assista ao teipe do jogo
verá que no meio da torcida havia rapazes negros também dizendo ofensas contra
Aranha.
O fato ganha dinâmica própria. Autoridades e instituições brasileiras, com a
delicadeza de um elefante no estro, começam a agir. A imprensa faz o carnaval
de sempre, seja para explorar a falta de assunto seja para ocultar a
inabilidade em explorar assuntos que realmente interessam; A CBF, uma das
entidades mais desmoralizadas do país, age: expulsa o Grêmio da Taça Brasil,
jogando a gasolina da paixão clubística no fogaréu de ressentimentos raciais. O
que o clube tem a ver com a falta de educação de seus torcedores?
Nada há tão ruim que não possa ficar
pior. A casa da “preconceituosa” é incendiada. Crime de ódio racial, movido por
negros ofendidos ou influenciados pelo clima criado pela imprensa? Ódio de
torcedores, brancos e negros, pelo fato dela ter causado esse prejuízo ao
clube? Aranha erra; diz que perdoa a moça, mas não quer se encontrar com ela
nem retira a queixa, ou seja, não perdoa. Os gaúchos também não, como ficou
demonstrado no jogo seguinte: o Rio Grande não é mais seguro para ele. Ninguém
para orientar esses dois imaturos, cabeças de vento? Se isso tivesse acontecido
no Brasil antigo, os sábios, de ambos os lados, já estariam esvaziando essa
celeuma desnecessária, dizendo com um sorriso malicioso: “isso é paixão
reprimida!” Quem garante que ela, torcedora estusiástica, não tenha se sentido
desconfortavelmente atraída pela atuação do goleiro, que frustrava o seu time
de coração, e a “ofensa” não saiu como um mecanismo de defesa?
Há anos que estamos fabricando um
racismo intolerável, e ainda inexistente, para o Brasil. Há quarenta anos um
conhecido nosso, por acaso negro, e certamente um fracassado, vivia repetindo:
“O Brasil, para os negros, é pior que a África do Sul (do Apartheid!)”, e é
óbvio que ele nunca fez qualquer esforço de ir para lá, sequer como turista,
mas, infelizmente, o número de pessoas que está apostando nesse desatino é cada vez maior. Quem ganhará com
isso?
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