terça-feira, 28 de outubro de 2014

ATENÇÃO: OS MEUS ARTIGOS DE OPINIÃO, QUE SEMPRE SAÍAM NESSE BLOGUE, AGORA SERÃO PUBLICADOS NO BLOGUE  historiatexto.blogspot,com.br

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Prof Eduardo Simões

            Duas coisas chamaram-me a atenção às vésperas do segundo turno: a grande quantidade de pessoas de classe média, as mais instruídas, que, no facebook, clamavam contra o “comunismo”, temendo, pela ascensão do PT, da mesma forma que a classe média de 1964, usando do mesmo argumento, atraiu sobre o país uma das mais violentas ditaduras de nossa história, que essa mesma classe média, vinte anos depois, pediria nas ruas, com muito mais clamor, que acabasse. Outra coisa que me impressionou foram as declarações, em áudio, da presidente da SABESP, Dilma Pena, e do diretor metropolitano da empresa, Paulo Massato, na Assembleia Legislativa de São Paulo.
            Segundo Dilma Pena, há muito tempo que se sabe da gravidade da crise hídrica em São Paulo, e que se fazia urgente a conclamação do povo para economizar água, o que não foi feito, segundo ela, por “orientação superior”. Ora, o escalão mais superior da SABESP é justo o governo de São Paulo, sócio majoritário da empresa, portanto tal determinação só podia ter partido dele, e nós sabemos porquê motivo. Já Paulo Massato é mais direto, e diz que, se as chuvas esse ano forem poucas, vai ser preciso “dar férias” a milhões de paulistas, para que se dirijam às cidades litorâneas atrás de água. Um apocalipse tipicamente brasileiro.
            Agora vem a questão: o que é pior, uma doutrina ultrapassada, decadente, defendida por meia dúzia de gatos pingados dentro do PT e em outros partidos de esquerda, ou o arrasto de milhões de pessoas ao desespero causado pelo caos de uma gestão que só pensa em dinheiro? Mesmo porque se se concretizar o temor do senhor Massato, para esses milhões de desesperados que virão essa ideologia decadente e idiota vai parecer verdade revelada. De quem será a culpa se isso acontecer? Do PT? Da esquerda? “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
            À classe média paulista eu bem que gostaria de poder dizer: “pensem melhor”, mas só posso dizer: “orem, orem muito, principalmente por você e pelos seus”, pois tudo indica que a hora de pensar e de agir já passou, e foi perdida.

Quem quiser ouvir o áudio da presidente e do diretor da SABESP vá para

Lei o texto abaixo e entenda o porquê dessa crise de água.

Sabesp distribui até 60% dos lucros aos acionistas durante governo Alckmin
Estimativas apontam que, entre 2003 e 2013, cerca de um terço do lucro líquido total da Sabesp foram repassados aos acionistas
            Em 1994, com a justificativa de que assim conseguiria mais dinheiro para investir em abastecimento de água e tratamento de esgoto, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) decidiu se tornar uma empresa de capital misto. Duas décadas depois, 50,3% de seu controle acionário se encontram nas mãos do Estado, enquanto 47,7% das ações são de propriedade de investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%).
            Embora o estatuto social da Sabesp determine que os acionistas podem receber 25% do lucro líquido anual da empresa (relação que o mercado chama de payout), a concessionária chegou a bater recordes em distribuição de dividendos durante o governo Geraldo Alckmin (PSDB). Em 2003, por exemplo, ano seguinte à vitória do tucano nas urnas, 60,5% do lucro líquido da Sabesp foram parar no caixa de acionistas. Na verdade, desde a sua entrada na bolsa de valores, em 2002, a Sabesp nunca registrou payout inferior a 26,1%.
            Estimativas feitas com base nos dados divulgados em março de 2014 pela Diretoria Econômico-Financeira e de Relações com os Investidores apontam que, entre 2003 e 2013, cerca de um terço do lucro líquido total da Sabesp foram repassados aos acionistas. O montante é da ordem de R$ 4,3 bilhões, o dobro do que a Sabesp investe anualmente em saneamento básico.

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            Negócio rentável
            No meio financeiro, comprar ações da Sabesp virou um negócio rentável. Desde que se lançou no mercado de capital, a companhia colocou papéis à venda em duas ocasiões. A primeira em 2002, com prospecto inicial totalizando 3,364 bilhões de ações ordinárias na oferta brasileira, e 1,252 bilhão no exterior, na forma de ADSs (American Depositary Shares).
Naquele ano, cada lote de mil ações ordinárias saiu por R$ 110 aos investidores institucionais e, no caso de desconto da oferta de varejo, R$ 104,50. O preço das ADSs ficou em US$ 11,22 cada – equivalente, na época, a R$ 27,50. A venda dessas ações no mercado rendeu R$ 506,9 milhões. Segundo o prospecto da oferta inicial, os recursos foram encaminhados em sua totalidade aos cofres do governo do Estado.
            Em 2004, a Sabesp retornou ao mercado com oferta de 5,273 bilhões de ações ordinárias, equivalente a 18,51% do capital social da empresa, por meio de uma distribuição pública secundária realizada simultaneamente no Brasil e no exterior. Dessa vez, 3,841 milhões de ADSs foram para o exterior. O lote de mil ações ordinárias saiu por R$ 113,47.
A arrecadação naquele ano atingiu R$ 598,2 milhões. O governo do Estado e a Companhia Paulista de Parcerias (CPP) – uma sociedade de capital fechado controlada majoritariamente pelo Estado que tem por objetivo “viabilizar a implementação do Programa de Parcerias Público-Privadas (PPP)” – ficaram com os recursos.
            No total, pelo menos R$ 1,11 bilhão foi parar no caixa do governo estadual a partir da venda de ações da Sabesp em 2002 e 2004. A reportagem do GGN questionou a Secretaria de Fazenda do Estado quanto aos investimentos que foram feitos com esses recursos. A pasta remeteu as perguntas à Sabesp que, até o fechamento dessa matéria, não se manifestou.
            O gráfico abaixo mostra o desempenho das ações da Sabesp no mercado desde a entrada na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo). Os picos registrados aconteceram em anos em que o lucro líquido da companhia de saneamento foi bilionário: R$ 1,055 bilhão em 2007, seguido de R$ 1,911 bilhão (2012) e R$ 1,923 bilhão (2013). O crescimento do lucro líquido puxa o aumento dos dividendos, o que torna as ações da Sabesp mais atrativas. Mesmo em 2008, quando a empresa teve lucro líquido de R$ 862,9 milhões, o payout foi de 34,3%.
   

A evolução das ações da Sabesp:
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            Dividendos x investimentos
            Se comparado ao total de investimentos feitos pela Sabesp nos últimos 10 anos em saneamento básico (aproximadamente R$ 17,3 bilhões), os lucros e dividendos da companhia de capital misto não parecem tão exagerados, segundo avalia Alexandre Montes, analista de investimentos ligado à Sabesp. De acordo com ele, “em 2012, o negócio da Sabesp gerou um caixa de R$ 4,3 bilhões apenas com a venda de serviços de água e tratamento de esgoto. Desse montante, ela investiu na aquisição de intangíveis cerca de R$ 2,8 bilhões”, afirmou.
            “Já em 2013, dos R$ 4,5 bilhões gerados, R$ 2,3 bilhões foram investidos. Do ponto de vista analítico-financeiro, a distribuição de rentabilidade para os acionistas está dentro dos padrões. Foram R$ 499 milhões em 2013 e R$ 579 milhões em 2012”, apontou o associado da Lopes Filho Consultores de Investimentos.
            Atualmente, cerca de 28 milhões de pessoas no Estado são abrangidas pelos serviços de abastecimento de água da Sabesp. Aproximadamente 73% dos clientes são moradores da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), cinturão abastecido pelo Cantareira, sistema protagonista de uma crise iminente de fornecimento de água, já que opera, desde o início de maio, com menos de 11% de sua capacidade.
            O governador e a Sabesp sustentam que o problema de abastecimento na RMSP acontece principalmente por falta de chuva. Na tentativa de evitar uma crise no segundo semestre, Alckmin anunciou algumas medidas emergenciais. Entre elas, a aplicação de multa em quem aumentar o consumo de água (ainda em análise pelos órgãos competentes), o uso das águas das bacias do Guarapiranga, Alto Tietê e, agora, Billings, para suprir a demanda paulista, além de uma obra de R$ 80 milhões para captar o volume morto do Cantareira.
            A conta que não fecha
            Ao longo de 10 anos da abertura de mercado e negociação de papéis na bolsa de valores americana, a Sabesp valorizou 601%. Na BM&FBovespa, a valorização foi de 427% no mesmo período, 2002 a 2012. Ou seja: em uma década no chamado “mercado futuro”, o valor da companhia saltou de R$ 6 bilhões para R$ 17,1 bilhões.
            Os investimentos em saneamento básico, por sua vez, subiram de R$ 594 milhões em 2003 para R$ 2,7 bilhões em 2013. Nos últimos cinco anos, a companhia hoje presidida por Dilma Pena investiu R$ 11,9 bilhões em distribuição de água e tratamento de esgoto, e pretende investir mais R$ 12,8 bilhões entre 2014 e 2018.
   
        
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            Para especialistas em gestão de recursos hídricos e saneamento básico ouvidos pelo GGN, a questão que não quer calar é a seguinte: como uma empresa como a Sabesp, com tanta rentabilidade no mercado e com investimentos bilionários em saneamento básico, não reduziu, nos últimos anos, a dependência do Sistema Cantareira? 
            O presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), Rene Vicente dos Santos, avaliou que a Sabesp tem investido maciçamente no crescimento do número de clientes, com o objetivo de ampliar o lucro com serviços de distribuição de água e tratamento de esgoto, deixando de lado novas tecnologias.
Ele apontou, por exemplo, que a Sabesp mantém tubulações que datam de 30 anos, e que ainda perde 25% da água que produz. Ou seja: a empresa ainda assiste à perda de 25% de receita, apesar dos investimentos feitos para melhorar essa situação.
            “A Sabesp tem investido nos últimos anos na ampliação da rede, mas a primeira coisa que faz com o lucro é garantir a rentabilidade dos acionistas. Ela aplica em melhorias, mas prefere direcionar os investimentos para onde consiga mais arrecadação ao final do processo – ampliação e rede, captação e tratamento de esgoto”, ponderou.
            Poucas opções para driblar a falta d’água
            Já na avaliação de Ricardo de Sousa Moretti, professor da pós-graduação em Planejamento de Gestão de Territórios da Universidade Federal do ABC, “o lucro da Sabesp indica que ela poderia ter feito um investimento muito maior em saneamento básico”, não só em volume de recursos, mas em aproveitamento de estudos e metas elaborados há pelo menos uma década, que apontam ser emergencial a busca por novas fontes de água para São Paulo.
Segundo Moretti, a Sabesp desenvolveu uma política voltada para lucros obtidos com a construção de grandes obras, como estações de tratamento – hoje, são mais de 214 espalhadas pelo Estado – “mas esqueceu que para funcionar, é preciso ter um sistema capilar eficiente, que leve água [da estação de tratamento] até em casa do cliente a partir do sistema arterial, que são as redes coletoras. Essa parte arterial não foi feita. Temos estações prontas, mas o esgoto não chega nelas. Ou seja, a Sabesp criou uma política insana, de grandes obras de engenharias, e não de gestão de águas”, criticou.
            A “política insana” da Sabesp, ainda de acordo com Moretti, também implica na condução de águas sujas a mananciais que servem de reservatório para a Grande São Paulo. Caso da Bacia da Billings, que recebe água que lava a região do rio Pinheiros quando há enchentes. O professor destacou que embora a Sabesp retire mais águas do braço Rio Grande para suprir a demanda do Cantareira, a represa situada na região do Grande ABC já trabalha perto de sua capacidade máxima. “O certo seria ter construído mais estações de tratamento no local, mas isso não foi feito”, lembrou.
            “Uso da Billings é improviso ao sabor da crise”
            O coordenador do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, João Ricardo Guimarães, classificou o anúncio de Alckmin sobre o uso da Billings como “improviso de soluções”. “Se isso era possível [usar a Billings para diminuir a dependência do Cantareira], por que não foi planejado e preparado há alguns anos? Por que o reservatório da Billings não abastece um número maior de pessoas há mais tempo? Por que fazer isso agora, ao sabor da crise?”, indagou.
            Para os especialistas, o governo Alckmin só tem duas alternativas para evitar uma crise no fornecimento de água após a Copa do Mundo. A primeira é rezar para que chova acima do patamar comum aos próximos meses, de modo que os reservatórios do Cantareira ganhem fôlego. A segunda é transferir águas da bacia do Rio Paraíba do Sul, de gestão federal, para contemplar a demanda paulista. Uma tarefa difícil, já que o governo do Rio sinalizou que a iniciativa pode comprometer o abastecimento de 10 milhões de pessoas só na Capital.
Fonte: Jornal GGN

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

VOTO DE OURO
Prof Eduardo Simões
            Justo quando parecia que a oposição estava tomando pé, veio uma maré e a envolveu. Mas alguém não dúvida que ela não vá se afogar?
            Aécio pegou muito pesado com a presidenta, que, esperta, deixou os ataques mais grosseiros para a sua equipe, enquanto o outro, açodado ou imaturo, partiu, ele mesmo, para a rinha, sofrendo as consequências. Aécio esqueceu que a sociedade brasileira é muito machista, e por mais que os anos passem, eleições junto, eles jamais verão a Dilma, ou qualquer outra, como presidenta ou candidata, antes de mulher. Aécio, portanto, agrediu uma mulher e uma mãe! Nada mais horrível, considerando que o brasileiro busca no espaço público compensar as ofensas, tiros e tapas que ocorrem no ambiente doméstico.
            Mas eu creio também, que boa parte da perda de Aécio, que alguns chamam “desidratação”, se deve ao fato de já ter chegado à classe média a desconfiança de que o mais poderoso estado da federação está à beira do colapso hídrico, com conseqüências inimagináveis, além das imagens dantescas da carência de água, que já começam a aparecer nos meios de comunicação, e que deve, fatalmente, arrastar o resto do Brasil junto. Como evitar a responsabilização do grupo de Aécio?
            Nesse cenário, a postura do governador de São Paulo e de seu entourage, só faz piorar as coisas ao negar peremptoriamente o sinistro climático, e perseguir quem fala dele... eu não disse nada! O eleitor já deve estar se perguntando: e se eles usarem do mesmo artifício para os casos de corrupção no seu futuro governo, como aconteceu com o caso da compra de votos da reeleição, com a Pasta Cor de Rosa, com a CPI da Máfia do Apito, que, segundo o jornalista Juca Kfouri, teve na omissão do senador Aécio elemento fundamental para o seu arquivamento, etc.? Não dá para negar que a punição para os crimes de colarinho branco só começaram nos governos do PT.

            Noutras palavras: se votar na Dilma você erra, por não querer dar cobro à atual corrupção, se votar em Aécio erra, pois será leniente com crimes futuros, pelo menos os grandes, se votar branco ou nulo ou não comparecer, você também erra, por mostrar desinteresse com o futuro do país. Por conseguinte. Seja qual for a sua decisão nesse domingo, dia 26, você estará certo.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

SENTIR PODE, FALAR NÃO

Prof Eduardo Simões

         Há algum tempo vemos algo insólito no mais importante estado da Federação: notícias, fartamente decoradas com fotografias, imagens de vídeo, etc., dando conta que existe uma grave crise hídrica no estado, inclusive com severas faltas de água já acontecendo em algumas regiões, e o governo do estado afirmando categoricamente que está tudo bem, que não há racionamento, mas apenas “redução da oferta”.
         Essa semana, inclusive, ele foi bem mais longe, chegando a mandar um comunicado “duro” a Ban Kin Moon, o Secretário da ONU, por causa de uma funcionária da Organização, que, estando no estado, notou e notificou a falta de alguma coisa, sem deixar de apontar a mais provável das causas: a inépcia de gestão da empresa concessionária de água, logo isso em um governo que se gaba de seus “choques de gestão”. O governador, segundo as agências noticiosas, pôs dúvida a credibilidade da ONU, tudo bem em um país onde se nega o direito de advogar a Joaquim Barbosa, por falta de idoneidade moral, enquanto se mantém incólume o registro do condenado Zé Dirceu, chegando inclusive a ameaçar de não comparecer à próxima Cúpula do Clima, em Nova York. Mais um pouco e haveria guerra.
         Internamente, dizem, que os reparos da observadora têm fundamento, uma vez que a tal empresa concessionária deu lucros deveras polpudos aos seus acionistas, talvez a custa de investimentos de ampliação reservas e prevenção do sinistro atmosférico, mas também aqui não é saudável falar sobre o assunto. O último que se atreveu foi o presidente da Agência Nacional de Águas, ANA, dizendo que as bombas nas represas já estavam próximas de bater no “lodo”. Iiiih! Um “ilustre” deputado do governo logo o chamou de “vagabundo”, e um secretário da administração estadual disse que o tal presidente é que iria para o lodo. O governador não disse nada, mas com certeza Narizinho Arrebitado está muito constrangida.
         Aos brasileiros, pois, que vierem a esse estado e os próprios moradores, falo assim como que em código para evitar... vocês sabem, devem cuidar para quando sentir sede pedir água, mas não dizerem para quê.

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ISSO AINDA NÃO ACABOU?

Prof Eduardo Simões

         Ficamos abismados ao ver e ouvir um padre muito conhecido, de uma comunidade religiosa muito conhecida do Vale do Paraíba, durante a homilia de uma celebração eucarística (!), afirmar peremptório: “Eu não voto no PT! Eu não voto no PT”. Vá lá que eu também não morro de simpatias por esse partido, em função dos últimos acontecimentos, mas não julgo adequado que o santo espaço da missa, ainda mais o de uma homilia, um momento para ensinar coisas nobres e elevadas a fieis já saturados da sujeira natural do entorno, seja dedicado a atacar unilateralmente uma determinada agremiação política, como se o baixo nível dos debates do segundo turno estivesse contaminando as ideias desse ilustre sacerdote.
         Tal posicionamento, além de extemporâneo é desprovido de caridade e de discernimento, afinal deve existir entre as milhares de pessoas que frequentam aquela comunidade, nos seus famosos “acampamentos”, pessoas votam no PT. Isso é pecado? Será que naquela missa não havia ninguém que votasse no PT? Com que perturbação no espírito, um simpatizante desse partido não assistiria o restante da liturgia? Essa gente pretende proibir aos católicos de votarem em determinados partidos? Sob que justificativa? Vão associar esses partidos a emanações ou pactos “demoníacos”, como o fazem, disparatadamente, a respeito de tantas coisas e costumes? Foi uma agressão, aparentemente gratuita. Não se pode convidar uma pessoa para ir à nossa casa e recebê-la com um bofetão.
         A política desperta paixão, e a paixão cega aos homens, por isso é fundamental que alguém mantenha a cabeça fria para ter credibilidade como mediador, caso o conflito saia de controle, e ninguém melhor para fazer isso, pelo menos até agora, do que o corpo eclesiástico da Igreja Católica, posicionando-se neutra em relação aos partidos, mas engajada na cobrança da ética ou da falta dela no comportamento público dos políticos, independente de partido. Espero que a atitude desse padre não crie escola.


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terça-feira, 21 de outubro de 2014

O TRISTE FIM DOS COVEIROS DE POLICARPO

Prof Eduardo Simões

         Nunca entendi porque a Academia Brasileira de Letras não aceitou incorporar Lima Barreto ao seu patrimônio social. Segundo Francisco de Assis Barbosa, em sua biografia sobre o escritor, repugnava aos acadêmicos o alcoolismo de Barreto. Talvez eles temessem que, tremelicante, aquele viesse a quebrar a louça inglesa usada nos chá das cinco. Mas aí vem a pergunta que não quer calar: se os marimbondos de fogo do Sarney puderam entrar, porque Lima Barreto de fogo não pode.
         O Brasil é um dos raríssimos países onde se constituiu uma Academia só para promover, para ressaltar, o bom uso da língua pátria, quando nem Portugal, o pai da criança, se deu a esse trabalho! E para quê? Se hoje “doutores” e “mestres” formados em universidades estrangeiras saturam a infosfera de recomendações, estudos, gráficos e o... e o... que mais vier, afirmando categoricamente que errar é “lindo”, basta que a intenção de quem se comunica fique clara, que exercícios de caligrafia anulam a personalidade – o que é desmentido pela grafologia desde o século XVII – e outras coisas mais sobre a “norma culta” que, pelo seu excesso de sabedoria, não ouso comentar aqui.
         O problema é que crianças assim educadas têm professores, e esses professores precisam avalia-las, e eu sou um deles. Como fazê-lo se o que elas escrevem ou dizem não faz o menor sentido. Eis o que eu tenho detectado: não há mais qualquer distinção entre letra maiúscula e minúscula, tudo é escrito com letra minúscula; quando se chega ao fim da linha a palavra é simplesmente interrompida, não há a menor noção de sílaba, “mérito” da Emilia Ferreiro e o seu letramento; não há mais o espaçamento no começo do parágrafo, e sequer parágrafo, vire-se; acento? Só o de sentar; etc. etc. Mas isso não é tudo! Como não há mais caligrafia qualquer um escreve como quiser, e aí começa o trabalho mais pesado do professor: entender que raio de sinal gráfico é aquele rabiscado a folha. Os profissionais da educação, no Brasil, precisam, urgente, de um curso de criptografia.
          Moral da história, a universidade e as escolas de alfabetização, principalmente as mais abandonadas e pobres desse país, transformaram a prestigiosa Academia Brasileira de Letras em um elemento meramente decorativo, típico de sociedades sem tradição e sem história, e, principalmente, sem respeito pelo seu povo, e que compensa o abandono deste com permissões paternalistas, pois de nada adianta cultivar boas regras de conduta literária nas altas esferas, se, nas baixas, o que vale é o vale tudo.

         Na entrada de Lorena há uma oficina mecânica, há uma oficina mecânica na entrada de Lorena, com um detalhe: o acento circunflexo de “mecânica”, não está sobre o primeiro “a”, mas sobre o primeiro “c”, um erro que nem meu computador, uma máquina burra, permite que eu reproduza, mas que para as “autoridades” educacionais de São Paulo está muito bem. Acho que os imortais ainda não sabem de sua morte.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ESPERANÇAS AUDACIOSAS E TEMORES INJUSTIFICADOS

Prof Eduardo Simões

            Certamente que foi com um misto de perplexidade, angústia e euforia, dependendo do lado em que se está, que pessoas nos quatro cantos do mundo receberam a notícia proveniente do sínodo dos bispos em Roma, reunidos sob a temática da família, anunciando uma mudança de postura da Igreja Católica no tratamento ao homossexualismo.
            Não se trata de um recuo puro e simples da forte condenação das práticas homossexuais, existentes na Bíblia, em inúmeras passagens como Lv 18,22. 20,13; Rm 1,27; sem falar de uma possível referência em 1Cor 6,9. E para que ninguém tivesse dúvidas de que a coisa era para valer, os Escritores Sagrados acrescentaram pelo menos duas passagens exemplares: a destruição de Sodoma e Gomorra, justificada imediatamente por Gn 19,5, e a quase extinção dos benjaminitas, iniciada por um desejo desenfreado destes em “conhecer” o levita de Efraim (19,22), apesar dos pedidos ingentes de seu hospedeiro (19,23), e que acabou redundando na morte da mulher do viajante e na guerra que se seguiu.
            Vista no conjunto não há dúvidas: a condenação é clara. Mas aqui também pode se levantar uma objeção de peso, pois a Bíblia foi escrita originalmente em um contexto, se é que a pessoa não acredita que o texto foi ditado diretamente por Deus aos ouvidos do hagiógrafo, como acontecia na Antiguidade, bem diferente do nosso, e então é preciso que essas condenações sejam interpretadas no espírito e costumes da época, que condicionavam fortemente a prática do homossexualismo.
            E que ambiente era esse? O homossexualismo estava fortemente vinculado aos rituais da religião pagã tanto asiática como greco-romana, dos quais os judeus deviam guardar distância, para evitar a “contaminação” de seus ideias religiosos, ainda muito objetivos e pouco espirituais. Ora, tal contexto, hoje, não existe mais, e essa questão deixou de ser algo de foro público e até nacional para se tornar algo de foro privado, fortemente condicionado pela solidão do mundo contemporâneo, principalmente, nos paraísos capitalistas das grandes cidades, onde o dinheiro vale mais que as pessoas. Foi a partir dessa realidade que eu ouvi a famosa declaração do Papa Francisco, voltando de sua viagem ao Brasil: “se uma pessoa é gay, busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”
            Tampouco se sustenta mais a crença antiquada de que a pessoa homoafetiva é necessariamente depravada, e só assume essa postura por “sem-vergonhice”. Existem casais ou pessoas de preferência homossexuais que se tratam com respeito e dão bons exemplos de convivência e urbanidade em sociedade, e muitos há que ainda buscam a fé na Igreja e uma inserção mais plena na comunidade dos fieis, e que nem sempre é acolhido com o devido respeito. Agora, se por ventura houver deles que se comportem de maneira indigna, que sejam tratados da mesma forma que os heterossexuais indignos.
            Dessa postura, preventiva e hostil nasce não poucas frustrações, sentimentos de culpa, mágoas e ressentimentos que fazem essas pessoas, em sua revolta, repudiar o mundo que lhe repudia, e que só lhe usa quando é do seu interesse, com aconteceu com o grande matemático inglês Alan Turing durante a Segunda Guerra, nascendo daí uma atitude de confronto ou defesa, que beira ao pecado explícito e contínuo, devido, às vezes, da incompreensão e falta de caridade, pasmem (!), da comunidade dos santos, que é a Igreja e seus fieis.
            É contra esse tipo de situação absurda que se levantam os bispos e o Papa Francisco, com a anuência de Bento XVI, buscando compreender a realidade dessa gente, e não a sua aprovação, recomendando uma atitude mais adequada, mais moderna e espiritual por parte dos católicos. É também uma postura de humildade diante de um mistério profundo, que não pode ser levado na base do ‘ou branco ou preto’, ‘ou tudo ou nada’, sob pena de arrancarmos o trigo junto com o joio, sem falar que se trata de uma atitude pastoral, sem dúvida relevante, mas que nada muda na teologia, na moral e na dogmática católica.
            Os tradicionais sinceros, creio, não têm nada a temer de mudanças indevidas que acarretem deterioração mensagem e da fé cristã-católica, da mesma forma que os homossexuais se iludiriam se vissem aí a aprovação explícita de sua opção sexual, e que o que foi escrito não está mais valendo. Sempre valerá.
            A Igreja não aprova, mas compreende, respeita e está disposta a caminhar junto, e até advogar por eles junto ao tribunal de Deus com atos e orações, como o faz por todos os seres humanos. Agora aqueles que vivem enxergando fantasmas a cada momento, que se assustam com tudo que foge aos padrões de sua espiritualidade estritamente secular e sociológica, e que à menor mudança já começam a ver catástrofes e apocalipses, só lhes resta uma coisa a fazer: começar a amadurecer, para não chegarem verdes à colheita de Deus.

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sábado, 18 de outubro de 2014

MAL OCIDENTAL

Prof Eduardo Simões

         No passado, sempre que algum conflito se destacava pela sanguinolência entre povos africanos, eu ouvia de alguém a expressão: “isso é herança do imperialismo... eles aprenderam isso com os ocidentais”. Confesso que nunca vi muito sentido nessas expressões, pois sempre tive muita dificuldade em vislumbrar anjos e demônios associados a grupamentos humanos, que são, independente das circunstâncias, sempre... humanos. O resto é ideologia barata, adquirida a custa de pouca reflexão. Entretanto ao ver as cenas dramáticas envolvendo as recentes vítimas, reais ou potenciais, do ebola na África, algo me chamou a atenção.
         Os documentários sobre a vida selvagem nos trazem o drama da luta pela vida na África, em toda sua majestade e dramaticidade, sem miséria ou indignidade, com o seu final inevitável: a morte. Aí há uma sabedoria. Sabedoria assimilada em milênios pelos africanos em geral, que aprendem da natureza a inevitabilidade da morte e a aceitação, entre natural e serena, da culminância de nossa vida. Mas não é isso que estamos vendo na TV. Um homem, agonizando ou desfalecido, jaz abandonado sobre uma poça d’água, um contaminado assoma uma feira livre, lotada de gente, multidões fogem para lugares remotos, espalhando doença, outros matam médicos para evitar a doença!
         Algo mau ficou da presença dos europeus na África, nesse último século e meio. Eles eram burgueses, burgueses arrogantes, cheios de empáfia e certezas, e, acima de tudo, descrentes de Deus e da natureza, a quem queriam corrigir. Sua visão de curto prazo, muito utilitária, fazia com que eles vissem na morte um flagelo ou um sinal de impotência humana, que deveria ser a todo custo postergada, quando não vencida. Morrer cedo, significa não “gozar a vida”, a vida que fluía, na forma de mercadorias, pelas portas das fábricas, ao custo da poluição e escarmento das fontes naturais de vida. Uma vida que só era gozada de fato no interior de mansões raras e exclusivas, para poucos colunáveis ou “fashion”.
         Disso tudo ficou o medo da morte, e o seu correlato, ao mesmo tempo contraditório e complementar: o medo da dor, física ou moral (cultural), principalmente quando ela implica em perda daquilo que nós nunca possuímos, o controle do futuro, que no desespero de seu aguçamento leva vários a buscar a abreviação da vida, acorrendo para o que mais teme. A doença não impossibilita a vida, mas a onipotência burguesa, e daí é melhor sair dela, pois deixar de ser produtor-consumidor pleno, nesse mundo, equivale ao inferno capitalista.
         O medo da morte gera o medo da dor, da qual se escapa pela busca da morte, que gera o medo da infecção, da doença, que também causa o fim da solidariedade, do heroísmo, da paciência, etc. Tudo isso muito ocidental, e nisso aqueles ideólogos tinham razão, e faz com que as cenas de desespero e desumanidade vistas na TV, aparentemente tão distantes, nos pareçam estranhamente familiares e ameaçadoras.


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TEMPOS AMARGOS (UM REPARO HISTÓRICO)

Prôs Eduardo Simões

            A última vez que vi Lauro de Oliveira Lima foi num avento internacional promovido pela sua escola, A Chave do Tamanho, no Rio de Janeiro. Um simpósio de primeira linha que contou com a presença de pesquisadores europeus e norte-americanos, como o psicólogo piagetiano Hans Furth, com vários livros traduzidos no Brasil; o filósofo suíço Thomas Kesselring, que escreveu uma das melhores biografias de Piaget; Jacques Voneche, diretor dos Arquivos Jean Piaget, da universidade de Genebra, etc.
            Nesse evento, eu assisti a palestra de um jovem professor da Federal Fluminense, se ainda me lembro, e dele ouvi que os piagetianos, como Lauro de Oliveira Lima, nada sofreram com o golpe militar, querendo reforçar uma tese muito comum de uma certa esquerda fugaz, de que Piaget é um autor “burguês-liberal” no sentido mais pejorativo possível desse termo, o único que essa gente conhece, e que eles usam para tudo o que não conseguem entender ou têm preguiça de saber. Quanto a mim, não preciso me justificar diante de um crítico tão desprovido de informação quanto provido da audácia dos que ignoram, mas me emocionei pelo professor Lauro, porque não foi isso que ouvi dele e de seus filhos.
            Lembro-me de uma conversa que tivemos, eu e minha esposa, com a filha do professor Lauro, Ana Elisabeth, quando ela contou que logo após o golpe, o seu pai teria se encontrado com Darcy Ribeiro, e lhe colocado francamente que o sonho de revolucionar a educação brasileira acabara. Darcy, talvez em choque, continuava apegado ao seu status de ministro da educação, e continuava fazendo planos, como se nada tivesse acontecido. Pouco depois de deixarem o apartamento de Darcy receberam um telefonema do próprio, preocupado porque havia homens estranhos cercando o seu apartamento – prováveis agentes a serviço do golpe militar, que sempre apareciam quando alguém estava para ser preso ou assassinado, como aconteceu com Anísio Teixeira, Juscelino Kubitschek, etc. Lauro e a filha foram à casa de Darcy, e saíram com ele, de carro, correndo pelas ruas do Rio de Janeiro, para despistar os agentes, até que, seguros, o deixaram na casa de um amigo, de onde partiria para o exílio; o mesmo destino que mais tarde sofreu outro grande mestre da educação: Paulo Freire. Lauro recusou-se a sair do Brasil, mesmo porque não havia jeito de ele entrar num avião.
            A continuação dessa história eu ouvi quando fui com ele ao Colégio Agapito dos Santos, em Fortaleza. Ele contou-nos, a mim e a vários professores da escola, uma longa história, onde tudo começou com o pedido do prefeito de sua cidade natal, Limoeiro do Norte, para que ele autorizasse o uso do seu nome no grupo escolar do município com seu nome, ele relutou: “eu ainda tô vivo, pode ser que lá na frente não dê pra que preste”, contou-nos sorrindo, mas no final concordou.
            Quando estourou o golpe, ele resolveu vir com a família do Rio para o Ceará, “nós esperávamos que o Arraes fosse resistir”, e tomou o caminho pelo interior do país, fugindo da vigilância dos grandes centros no litoral, uma viagem que, segundo ele, durou um mês. Mas foi em vão, pois quando ele chegou Arraes já tinha sido preso, e tudo estava perdido, tendo então buscado refúgio em Limoeiro, com a sua parentela. Certo dia resolveu dar uma passada no grupo escolar que tinha o seu nome, bem a tempo de ver homens, numa escada, retirando a placa com o seu nome. Sabem como é promessa de político. Nesse momento ele passou a mãos sobre a cabeleira e disse, rindo nervoso: “eu viajei cinco mil quilômetros só pra ver isso!”
            Nesse período, ele estava em minha casa e nós ficamos sabendo que Paulo Freire estava em Fortaleza, participando de um evento na Faculdade de Pedagogia da Federal do Ceará (UFC). Ele ficou indócil, e queria de todo custo ir lá, rever o amigo de velha data. Fomos. Quando chegamos, Paulo estava sentado à mesa, e ao ver o recém-chegado levantou-se imediatamente, e abraçaram-se emocionados. Ver aqueles dois gigantes da educação brasileira ali, se abraçando, já de cabelos brancos, vítimas de um regime odioso e odiento, foi, para mim, impactante, mas percebi uma certa indiferença do auditório, e até hostilidade, à medida em que o evento prosseguia e se acentuavam a diferença na postura pessoal dos dois educadores, porque politicamente defendiam os mesmos ideais, e as pessoas nem notaram: Paulo sempre muito calmo, professoral, quase paternal, ou, na linguagem atual, politicamente correto, enquanto Lauro se mostrava provocador como sempre, politicamente incorreto, um profeta bíblico, e um profeta bíblico só pode suscitar um sentimento: ou adesão completa ou repulsa completa. Lauro foi rejeitado.
            No dia seguinte, passei na faculdade, para ver o impacto do acontecido. Havia um mural com várias fotos, em nenhuma delas aparecia Lauro de Oliveira Lima. Um dos maiores acontecimentos da educação brasileira, que tão cedo não se repetirá, com homens de tão grande envergadura, foi solenemente ignorado, com o agravante de que Lauro era gente da casa, os cearenses o repeliam pela segunda vez. Mas que fazer quando as organizações estudantis são teleguiadas por grupos políticos mais estreitos que a ponta de um alfinete, e as pessoas só querem ouvir o que lhe soa bem aos ouvidos, que reforça aquilo que elas já acreditam? Um autêntico piagetiano jamais faria isso, pois estaria traindo o conceito de crescimento a partir do binômio equilibração-desequilibração, descoberto por Piaget. A ditadura estava sendo derrotada nas ruas, mas continuava incólume na cabeça de estudantes e professores, daquela elite acadêmica.
            Depois veio a prisão, numa cela do 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza – Elisabeth falou-nos que quando passavam diante do quartel o filho mais novo de Lauro dizia: “olha a casa do papai!” – os inquéritos por “subversão”, a aposentadoria compulsória miserável, com sete filhos, sem falar que a continuidade dos processos e o clima em Fortaleza, “as pessoas quando nos viam, mudavam de calçada, para não falar conosco”, forçaram a família a ir para o Rio, onde enfrentaram mais pobreza e humilhação, morando de favor na casa de parentes. Nessa época, o professor escrevia seus livros sentado em uma cama, com uma máquina de escrever sobre as pernas, depois de passar vários dias em estado de choque. A fibra nordestina falou mais alto, e a família venceu.
            Certa vez levei-o para casa de praia de minha irmã e o apresentei a minha mãe, que o admirava, mas ele, eu creio, lembrando-se dos episódios do passado, com certeza ele conhecia a família de minha mãe, e sabia que esta havia sido adepta do golpe militar. E ele foi duro, fez umas observações “pesadas”, como sempre fazia sempre que queria provocar o começo de um debate, ou uma conversa que não fosse estritamente formal. Minha mãe aguentou firme, como uma boa anfitriã, e o dia acabou em paz. Mas desse dia também guardo uma lembrança engraçada de uma história que ele contou do atual reitor da UFC, que, passeando pelas ruas de Roma, quando estudante, teria comentado: “que emoção, essas ruas onde Licurgo pisou!”, ao que um amigo respondeu: “fulano, se Licurgo pisou aqui foi como turista, porque Licurgo era grego”. Caerense não perde uma.
            Mas não era sempre em paz que acabavam as provocações do professor Lauro. Certa vez, no auditório da Universidade de Fortaleza, numa mesa com vários reitores, ele debochou tanto da situação, essa era a sua técnica preferida para ‘esquentar’ um debate, que um professor visitante, o italiano Domenico Battochio, tomando as dores da instituição, deu início a um bate-boca memorável com ele. Quando eu cheguei o ‘pau’ já estava quebrando, e eles se espinafravam reciprocamente em termos tão eruditos que eu estaquei, sem saber se acalmava a situação ou se chamava mais gente para ver e ouvir. Até minha esposa depois me questionou depois: “porque você ficou parado?” Memorável! Memorável! Que saudade!
            Anos depois o Ministro Jarbas Passarinho afirmou que os militares cometeram um erro ao perseguir o professor Lauro, seja porque pressentiram que as ideias deste nada tinham de comunismo, a inteligência do professor jamais lhe permitiria entrar num movimento tão estreito quanto esse, pelo menos naquele tempo, seja porque os militares já estavam isolados demais e queriam aliados de qualquer lado, mas o professor não caiu nesse canto de sereia, e aproveitou para alfinetar os destruidores de nosso melhor momento educacional: “o problema atual da educação no Brasil, disse ele após saber da fala do ministro, é de falta de neurônios, afinal ela é gerida por um passarinho...”
            As pessoas, porém, mudam, podem melhorar. Pena que o professor Lauro não tenha percebido o processo de mudança política, paulatina, de minha mãe. Tudo começou com a morte do Marechal Henrique Teixeira Lott, em 1984. Quando ela ouviu o jornalista na TV descrevendo a trajetória de Lott, sua defesa da constituição, da legalidade, sua resistência à Oligarquia Militar, ela, que fora uma janista de carteirinha, me disse: “eu não sabia que o Lott era tão bom (textual)”. E eu respondi: “vocês [as pessoas da sua geração] foram enganados”. Ela ficou calada, reflexiva. Suas mudanças continuaram até que ela se tornou decididamente uma pessoa de esquerda, e pagou caro por isso, uma vez que sempre convivera com ambientes e pessoas de matiz político inverso, e tão duro foi o isolamento, para ela, que pode até ter abreviado a sua vida, levando-a à morte em outubro de 1994, com 69 anos. Lauro morrerá em janeiro de 2013, com 92 anos.
            O professor Lauro, então, nada sofreu! Tolos sempre existirão, assim como as suas tolices, tornadas públicas a pretexto de tudo e de nada, até como forma de compensação de seu vazio intelectual. Cabe aos que não se cansam de pensar ou de “dar para o que preste”, fazer com que o sacrifício dessa gente tenha valido a pena.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TODA BONDADE SERÁ CASTIGADA

Prof Eduardo Simões

         Uma idosa diz, na televisão, que estava descansando na sua varanda, quando um grupo de rapazes chamou-a do portão e, dizendo-se representantes de uma instituição que cuida de drogados, pediram donativos com uma máquina de cartão, “um deles chegou a chorar”, disse a senhora. Por sorte o filho dela estava em casa e a salvou de ter seu cartão de crédito clonado pelos jovens larápios, que fugiram. Mesma sorte não teve outra idosa, que lamentava, no jornal regional, a perda de mais de 90 mil reais em um golpe: “a gente passa décadas para acumular um patrimônio, para perder tudo em cinco minutos”. A reportagem avisa: esse tipo de golpe está crescendo. No Brasil de hoje, o mais aconselhável é se desapegar de tudo, a começar pela vida.
         Semana passada e essa foram trágicas: começou com uma chacina na Baixada Fluminense, onde o único sobrevivente tinha apenas 12 anos, e em Goiânia foi preso o assassino serial que já matou 15 mulheres, além de vários moradores de ruas e homossexuais. O maior assassino serial da nossa história, com forte predileção por mulheres, como se não bastasse e violência doméstica que rotineiramente já atinge essas três categorias: velhos, mulheres e crianças. Ai dos mais fracos.
         Em que pese as conquistas notáveis, que sempre nos pegam de surpresa durante a propaganda eleitoral, é forçoso reconhecer que nesse assunto, o cuidado com o outro, em especial os mais vulneráveis, nós estamos na contramão do mundo civilizado – é que nós somos originais em tudo, inclusive no nosso conceito de civilização. Na China e no Oriente os velhos são quase sagrados; no mundo Ocidental a máxima “mulheres e crianças primeiro”, tem um forte apelo nas sociedades desenvolvidas, visível tanto nas telas como na vida real – quase dois terços das pessoas que se salvaram no Titanic eram mulheres e crianças. O papel mais bonito, porém, foi feito pelos passageiros da segunda classe, onde 92% dos homens pereceram, contra apenas 14% das mulheres. Todas as crianças dessa classe foram salvas. A primeira classe não fez feio: 67% dos homens morreram, contra apenas 3% das mulheres. Das seis crianças da primeira classe, uma morreu.

         As principais e mais famosas cabeças pensantes do país estão preocupados com a baixa taxa de crescimento da nossa economia, com a perda de prestígio do Brasil nos fóruns internacionais, com o déficit na balança de pagamentos, a desindustrialização (será que o Brasil vai terceirizar o seu parque industrial para os chineses?), etc., mas mesmo reconhecendo a importância desses temas, não podemos deixar de alertar que eles não são muito quando comparados com o abismo da falta de valores coletivos e civilizacionais, que se acumulam nas calçadas, pátios, salas e corredores de nossas escolas, como um gigantesco sumidouro, se abrindo sob nossos pés, como o vazio do PISA.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

MUITO PIOR

Prof Eduardo Simões

         Não dá para acreditar no que estou vendo e ouvindo: um importante diretor das SABESP afirma, no Bom Dia Brasil (16/10/14), que o “abastecimento de água [na grande São Paulo] está normal”, quando segundos antes uma matéria mostrou o efeito devastador da seca em bairros da periferia, um dos quais não vê uma gota na torneira há seis dias. Uma pobre mulher, estressada, não consegue deter as lágrimas. Infelizmente isso é só o início das dores, pois ninguém aqui faz ideia do quão devastador pode ser uma falta de água prolongada; eu sei porque sou nordestino. E qual a razão desses contratempos que teimam em contradizer o ilustre diretor? Segundo ele, o que está havendo é “aumento de consumo”... Os paulistanos vão se afogar no seco. É melhor parar por aqui.
         Quando eu era jovem, embalado pelos protestos da esquerda, na luta contra a oligarquia militar, ensinaram-me que o grande inimigo do povo era a burguesia, o empresariado, que, desalmado, atirava-se com fome ao pescoço dos operários a fim de sugar até a última gota de seu sangue magro, desidratado pelo excesso de trabalho a gerar mais-valia para o seu carrasco, e até hoje a esquerda saudosista, presente no Governo Federal, vive farejando isso, embora de vez em quando mande beijinhos para o capital, e nada de tchau-tchau.
         Mas não foi isso o que eu vi na parte mais importante da matéria, pelo contrário: um motorista de caminhão-pipa, resolveu, por conta própria, levar um caminhão de água para a sua comunidade no subúrbio, e o dono da empresa, ao invés de puni-lo, não só o apoiou como arranjou mais caminhões para dar levar água gratuita àquela gente. O empresário, bem jovem, apareceu encarecendo as pessoas de se ajudarem mais nessa crise, que o governo estadual nega peremptoriamente.
         Depois dessa matéria me convenci de duas coisas: realmente nosso estado se aproxima cada vez mais de ser aquilo que o humor dos brasileiros já consagrou: o Tucanistão; ao mesmo tempo em que ainda podemos ter fortes esperanças no povo e nos empresários brasileiros. Já os políticos...

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ESTRANHA AVENTURA

Prof Eduardo Simões

         “Comprazo-me na lei de Deus segundo o homem interior, mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão” (Bíblia de Jerusalém). Quem diria que essas palavras, aparentemente sem sentido, escritas a quase dois mil anos por São Paulo, descrevessem de forma perfeita a natureza humana!
         Certa vez, ao entardecer, fui a uma cabeleireira próxima à Capela da Sagrada Família, no bairro do Pedregulho. O ambiente estava lotado, também não precisava muito para lotar o cubículo, onde uma diligente senhora praticava o seu mister de levar adiante a herança de Adão: “viverás do suor do teu rosto”. Para mal dos meus pecados, uma senhora um tanto espalhafatosa, esperando alguém à porta da cabeleireira, começou a dirigir-me elogios rasgados.
         “Era só o que faltava, pensei, ser incomodado por uma ‘velha louca’”. Minha primeira reação foi sair dali, afastar-me, sendo, entretanto, tolhido ainda na intenção pelos insistentes pedidos da senhora para que eu sentasse ao seu lado, em um banco. Além dos elogios, que então eu achava inoportunos, tive que aguentar o ‘bafo da onça’ que ela mamou, mas, a minha criação e a minha fé cristã me diziam que não havia, ainda, nenhuma razão para uma atitude mais firme, hostil, grosseira ou excessivamente pundonorosa da minha parte.
         E não deu outra; a velha começou com um papo ‘brabo’, cheio de malícia e sei lá de quantas intenções, ao qual eu respondia amigavelmente, como se ela estivesse sendo movida pelas mais puras intenções, ficando estranhamente calmo, mesmo quando ela pousou uma mão sobre minha perna, eu estava de bermudas. Não devolvi a gentileza.
         De repente algo misterioso aconteceu, e a mulher, perdendo aquela alegria superficial dos tolos, começou a dar sinais de estar claramente incomodada, e, virando-se para alguém, disse sem mais: “fulano, vamos embora daqui!” O fulano pediu-lhe que esperasse, pois alguém, que eles esperavam, ainda estava com a cabeleireira, mas ela continuou, balançando muito a cabeça, fazendo expressões faciais de quem é tomado por um forte mal estar, a dizer: “vamos embora”. Pouco tempo depois foi, e... nem se despediu.
         E aí, curiosamente, tem início um outro drama em mim, afinal a mulher não cessara, no início, de jogar meu ego pra cima, dirigindo-me elogios, e eu quase que lhe disse: “espere aí, o papo tá bom, mais um pouco e eu acredito!” Mas fiquei calado e um tanto incomodado pelo que acabara de perder, ainda sem condições de aquilatar o ganho. Cortei meu cabelo e voltei para casa, deixando às costas a silhueta clara, modesta, e ao mesmo tempo imponente e serena da Capela da Sagrada Família, a destacar-se contra o negrume da noite, como a dizer diante daquele drama humano: “tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, quando uma só é necessária".


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ESTÁ FALTANDO ALGUMA COISA!

Prof. Eduardo Simões
        
         Em setembro de2011, nós vimos a uma das jogadas mais geniais dos últimos tempos, feita por um jogador brasileiro em gramados sul-americanos – em geral eles deixam o seu melhor futebol para a Europa. O jogador Leandro Damião deu um chapéu invertido, uma “lambreta”, em um zagueiro argentino, e, pegando a bola de primeira, encobriu o goleiro adversário, quase fazendo o gol. Até os argentinos aplaudiram extasiados! Nós, esperançosos, dizíamos: “está nascendo um novo craque”.
         Outubro de 2014. Um lance filmado em detalhe, sem nenhuma de dúvida: dentro da área do Criciuma, eu não disse Real Madrid, Barcelona, Bayern, etc., Damião puxa a sua própria camisa, dentro da área, para provocar um pênalti, justo no momento em que os jornais noticiam que cada vez mais jogadores estão se denunciando ao árbitro, para evitar erros de arbitragens ou vantagens desleais... na Europa, entre eles o campeoníssimo Miroslav Klose. Eu fico pensando: se os jogadores brasileiros estão com esse nível de enganação e deslealdade, como eles e os técnicos podem exigir, da forma que exigem, que o juiz não cometa erros? Será que Damião não sabia que a partida estava sendo televisionada?
         Outra coisa que bombou na internet foi a foto de uma senhora já madura, gente da qual sempre se espera o contrário, tirando um selfie junto ao caixão de Eduardo Campos. Imediatamente essa foto foi montada por “n” navegantes, que adicionaram a imagem dela, e seu maldito celular, junto ao naufrágio do Titanic, à explosão das Torres Gêmeas, à Cristo crucificado, ao desastre da Seleção, etc., ficando nacional e, quiçá, internacionalmente marcada. Aposto que ela jamais pensou que uma coisa tão “natural”, “todo mundo faz”, podia dar nisso. Foi uma lição? Temo que não.
         Pessoas com esse tipo de atitude são rapidamente classificadas pela expressão adjetiva vaga e abrangente de “sem noção”, inclusive por outros que só não fizeram pior ainda porque não tiveram oportunidade. O importante é curtir com quem foi idiota bastante para se expor, mesmo sabendo que os que curtem hoje poderão ser curtidos amanhã, e o balão de gás fétido da falta de juízo, ou de noção, só faz crescer.
         Ninguém nasce com noção, todos somos sem noção de nascença, quem nos dá a noção é o ambiente social, mediado pela cultura, em geral introjetada em crianças e jovens por meio da educação, na qual a escola tem, ou deveria ter, papel fundamental, ainda mais nos dias de hoje onde a família abandonou seu dever parental, deixando os cuidados da prole a professores sobrecarregados e sistemas indiferentes?
         O sistema só tem um interesse: formar mão-de-obra não-pensante e não-vivente para tocar, submissa, as máquinas que movem o progresso de poucos. O homem não é mais a extensão da máquina, mas o seu subproduto, e com ela deve parecer se não quiser ficar sem lugar na sociedade. Só importa desenvolver a parte cognitiva para fazer bonito nos exames nacionais e internacionais, e dar matéria para a eleição dos mesmos políticos a revezar no poder, sem qualquer atualização que mereça respeito.
         Enquanto a escola não levar a sério a diferença entre o homem e a máquina, e não começar a trabalhar a parte afetiva e a socialização das crianças, isso só vai piorar.

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NADA MUDOU

Prô Eduardo Simões
         O aprendiz de feiticeiro Inácio ‘Lula’ da Silva, especializado em beberagens mágicas, como aquela que pretendeu unir os interesses da classe trabalhadora com os da direita corrupta, quando Presidente do Brasil, resolveu, sem consultar as instituições republicanas competentes, como é hábito entre os donos do poder no Brasil, perdoar a dívida externa de vários países africanos, a pretexto de resgatar uma injustiça histórica: a vinda forçada de milhões de africanos, como escravos, para construir, com o seu trabalho, a nação brasileira.
         A atitude de Lula até que mereceria prêmio, mas entre as dívidas perdoadas estava a de países governados por ditadores truculentos, inclusive um, o do Sudão, acusado de genocídio pela ONU e com ordem de prisão internacional decretada!, o que torna tudo muito suspeito, e faz a nossa convicção pender para outro tipo de justificativa não muito declarada nem aclarada: fazer negócios com esses países, com aquele velho toque da esperteza a que estamos acostumados.
         Lula fez escola e sua filhota seguiu pelo mesmo caminho, perdoando e reestruturando dívidas de vários países africanos, inclusive aqueles governados pelos espertos de sempre, que desviam o dinheiro dos empréstimos em seu benefício, enquanto o povo amarga a mais absurda miséria e ignorância, como estamos vendo nesses episódios do ebola. A sucessora não só perdoou a dívida com abriu de par em par as fronteiras para supostos refugiados, sem qualquer critério ou controle sanitário, fazendo-nos retroceder ao período anterior a 1850, quando uma torrente de africanos entrava no país por contrabando, em portos clandestinos. Hoje entram pelo Acre se dizendo haitianos. O passado, ainda não redimido, bate à porta.
         O resultado não se fez esperar, temos um suspeito de contaminação pelo ebola, e quer isso se confirme ou não, ficou um aviso e uma denúncia, pois ele entrou por um aeroporto, os nossos postos de fronteira mais vigiados. Se isso passa pelo aeroporto imagine-se o que não está passando pela fronteira terrestre e nesse imenso litoral sem dono. A propósito, entre os países beneficiados com esses surtos, desculpem-me o termo, de ‘bondade presidencial’ estão quatro países já atingidos: Guiné, Nigéria, Senegal e Congo, que tratam seus doentes do jeito que estamos vendo. Torraram nosso dinheiro, abandonaram o seu povo, receberam o ‘nosso’ perdão, e agora nos mandam o resultado de seus e de nossos desmandos.
         Hoje faltam hospitais na África, como falta no Brasil, e se falta vergonha na África, a gente ainda pode dá uma ‘mãozinha’. Nós continuamos a importar para lá a nossa corrupção moral, enquanto eles exportam para cá a sua desesperança.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O INIMIGO SOMOS NÓS

Prof. Eduardo Simões

         Li um artigo do grande Ferreira Goulart, onde ele comenta, estupefato, a audácia de um político muito conhecido, que, num momento de desequilíbrio e esquecimento de sua notável biografia, começou a propalar boatos absurdos, e por conta destes conclamou o povo a uma massiva manifestação em frente à Petrobrás, contra aquilo que ele mesmo inventou, que, como era de se esperar, não atraiu quase ninguém, além do poucos que já habitam o gigantesco deserto que circunda esse homem.
         Mais ainda causa-nos estranheza, o fato de essa atitude muito assemelhar-se com a daqueles a quem esse notável político muito combateu em passado recente: a Oligarquia Militar. Explico; entre os militares, a rainha das manobras é a emboscada, quando, por meio de mentiras e falsidades se induz o inimigo a crer em coisas que não existem, subestimando ou superestimando as forças que vai enfrentar, causando-lhe a derrota. Os grandes generais foram os melhores mentirosos. Essa intuição já era clara em Ésquilo, dramaturgo grego, que escreveu: “em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade”.
         Isso é considerado normal pelas nações, porque sempre se teve o inimigo como o estrangeiro, mas que fazer quando uma elite transforma o seu povo, na sua totalidade ou a determinados grupos, em inimigos, aos quais é lícito enganar, seja em nome da Doutrina da Segurança Nacional, embalado pelo conceito de “inimigo interno”, seja para garantir vitória na próxima eleição, embalado pelo conceito de “inimigo de classe”.
         ‘Tecnicamente’, nesse caso não há mentira, nem perjúrio, nem crime, nem desonra, mas apenas, mas apenas ‘desinformação’, ‘contrainformação’, ‘sagacidade’, e mais um catatau de eufemismos para justificar o que deveria ser injustificável, apresentados como uma forma de patriotismo, seja em nome da nação, de uma classe, e até de um grupo de supostos ‘iluminados’, apresentados como os mais capazes para dirigir os destinos do eterno rebanho de zé povinho, ainda que de dentro de complexos penitenciários. Os traficantes não fazem isso?

         Aonde fomos parar? Desse pecado, nenhum dos pretendentes, aparentemente, se isenta, e que ninguém seja louco de desafiar os donos do poder à primeira pedrada, pois ao contrário dos que havia no tempo de Jesus, os de hoje se especializaram em jogar pedras. E é cada pedregulho!
BRINCANDO COM FOGO (I)

Prof Eduardo Simões

         A revista especializada BBC History Brasil lançou um assunto polêmico em seu último número. No artigo intitulado a Lei da sobrevivência, a editora, Tatiana Santos lembra o papel dos chefes tribais africanos no comércio de gente expulsa daquele continente na condição de escravo, principalmente para o continente americano.
         Esse é, de fato, um tema tabu na nossa historiografia, pelo menos naquela que escreve os livros que formarão as cabeças das futuras gerações nas escolas, pois neles é regra comum ensinar que toda a problemática escravista africana se prende apenas à ambição da burguesia ocidental, de fato ambiciosa, e associada ao rei no processo de formação do estado nacional, impondo de fora para dentro, com violência irresistível, o estatuto da escravidão entre os africanos. Lembro-me até de um livro didático, que tinha uma gravura de uma mulher africana, escondida com umas crianças, observando europeus caçando gente no terreiro de sua aldeia.
         Os fatos, porém, não corroboram esta visão, e o que temos é que até o final do século XIX não era possível a europeus devassar o interior do continente africano sem a autorização do chefe local, e longe de fazer guerra indiscriminadamente contra povos africanos resistentes, ocasionando grandes perdas e resultados incertos, que tornariam o tráfico antieconômico, os europeus, até esse período preferiam negociar e aplicar o velho preceito de “dividir para governar”, sem falar que mesmo depois disso eles não puderam ignorar a dificuldade de controlar territórios na África, haja vista o massacre de todo um regimento inglês, o melhor exército de então, em Isandlwana, em 1879, pelos zulus, o massacre da guarnição de Cartum, pelos sudaneses, em 1885, e muitos outros.
         Diferente, porém, da editora não creio que isso se deva à necessidade de ocultar o racismo da nossa população, mas antes do desejo infantil de parecer politicamente correto, numa sociedade onde, tradicionalmente, a originalidade e o pensamento crítico são temidos. Mas não dá para ficar eternamente prisioneiro do medo, ainda que seja o de parecer politicamente incorreto...


BRINCANDO COM FOGO (II)

Prof Eduardo Simões

         Quanto mais assumimos a pretensa conduta de combate aos mitos, principalmente na história, mais os criamos, como se internamente ou inconscientemente soubéssemos que não dá para viver sem mitos, e por isso criamos outros para combater os antigos, esperançosos de com aqueles acabar com todos eles. É assim que surge a figura de Zumbi de Palmares, o campeão da luta pela liberdade contra a escravidão, mas que tinha escravos a seu serviço, da mesma forma que Tiradentes, o herói branco da independência, construído às pressas para uma República improvisada, ocultando a sua condição de bode expiatório, a nos fazer crer que nosso povo é racista e anda em busca de branqueamento.
         A tese de branqueamento parece-me semelhante ao título daquela peça de Nelson Rodrigues: Bonitinha, mas... porque parte principalmente da opinião de brancos ricos e barões do café, que, por sinal, também impuseram enorme resistência ao casamento de suas filhas com os “galegos” e “carcamanos”, brancos, mas pobres, e portanto merecedores de termo tão depreciativo. Quantos ricos e barões do café havia no Brasil? Poucos. Quantos estariam dispostos a conviver amigavelmente com imigrantes europeus pobres, só porque eram brancos? Menos ainda. Esses homens são numerosos o bastante para ser considerados representantes da sociedade brasileira?
         Resta intelectuais como Oliveira Viana, Roquette Pinto, Nina Rodrigues, etc. escrevendo sobre eugenia em um país com 80% de analfabetos em edições de mil a dois mil exemplares. Quantos dos escassos leitores desses intelectuais concordavam com tudo o que eles diziam a respeito da raça brasileira? Muito mais impactantes do que eles foi Gilberto Freyre, por exemplo, dizendo justo o contrário.
As teses de branqueamento não passam de solilóquios de uma elite tão isolada como não representativa do povo brasileiro, que, mouco para essas arengas estrangeiras, se misturava, e ainda se mistura, na salada ou no laboratório racial em que se tornou esse país, fazendo com que, no limite dessa questão, se chegue a abençoar a escravidão que trouxe gente tão bonita, quanto inteligente e forte de terras tão longínquas, que de outra forma não teria vindo. Essa é uma de nossas grandes tragédias...


BRINCANDO COM FOGO (III)

Prof Eduardo Simões

         Mas um dia uma esquerda, tão politicamente correta no discurso quanto incorretas nos atos, chegou ao poder e fez-nos crer que éramos um povo racista, e que, da mesma forma que os americanos, que andavam mutilando e enforcando negros em praças públicas, impedindo-os, por causa da pele, de freqüentar universidades e o serviço público, precisávamos instalar uma política de cotas e medidas compensatórias de caráter racial, etc. O encanto fora quebrado, e o paraíso racial em que brancos e negros se encontravam no Brasil, eficaz ou não, fora quebrado, e brancos e negros descobriram-se nus, recobertos apenas pela vergonha do ato criminoso, no caso dos primeiros, ou do ressentimento por fazerem papel de bobos por todo esse tempo, no caso dos últimos. O ovo da serpente estava maduro. Só faltava um motivo para descascá-lo: aconteceu...
         Um jogo de futebol como outro qualquer, no estádio do Grêmio de Porto Alegre. A torcida, querendo desconcentrar o goleiro Aranha, do Santos, dá vazão a habitual falta de educação das torcidas brasileiras e começa a xingá-lo com injúrias racistas, aparentemente por este estar também se esmerando muito na “cera”. Uma moça loura é captada pelas câmaras, justo no momento fatídico: “ma-ca-co!”, imagem passada e repassada uma infinidade de vezes, até as pessoas decorarem. O goleiro, ofendido ou aproveitando-se do momento, “futebol é guerra!”, dizem, reclama ao juiz. A moça do momento infeliz é identificada, e sobre ela, sem qualquer consideração pelo contexto, é jogada a pecha de “racista”, embora quem assista ao teipe do jogo verá que no meio da torcida havia rapazes negros também dizendo ofensas contra Aranha.
         O fato ganha dinâmica própria.  Autoridades e instituições brasileiras, com a delicadeza de um elefante no estro, começam a agir. A imprensa faz o carnaval de sempre, seja para explorar a falta de assunto seja para ocultar a inabilidade em explorar assuntos que realmente interessam; A CBF, uma das entidades mais desmoralizadas do país, age: expulsa o Grêmio da Taça Brasil, jogando a gasolina da paixão clubística no fogaréu de ressentimentos raciais. O que o clube tem a ver com a falta de educação de seus torcedores?
         Nada há tão ruim que não possa ficar pior. A casa da “preconceituosa” é incendiada. Crime de ódio racial, movido por negros ofendidos ou influenciados pelo clima criado pela imprensa? Ódio de torcedores, brancos e negros, pelo fato dela ter causado esse prejuízo ao clube? Aranha erra; diz que perdoa a moça, mas não quer se encontrar com ela nem retira a queixa, ou seja, não perdoa. Os gaúchos também não, como ficou demonstrado no jogo seguinte: o Rio Grande não é mais seguro para ele. Ninguém para orientar esses dois imaturos, cabeças de vento? Se isso tivesse acontecido no Brasil antigo, os sábios, de ambos os lados, já estariam esvaziando essa celeuma desnecessária, dizendo com um sorriso malicioso: “isso é paixão reprimida!” Quem garante que ela, torcedora estusiástica, não tenha se sentido desconfortavelmente atraída pela atuação do goleiro, que frustrava o seu time de coração, e a “ofensa” não saiu como um mecanismo de defesa?

         Há anos que estamos fabricando um racismo intolerável, e ainda inexistente, para o Brasil. Há quarenta anos um conhecido nosso, por acaso negro, e certamente um fracassado, vivia repetindo: “O Brasil, para os negros, é pior que a África do Sul (do Apartheid!)”, e é óbvio que ele nunca fez qualquer esforço de ir para lá, sequer como turista, mas, infelizmente, o número de pessoas que está apostando nesse  desatino é cada vez maior. Quem ganhará com isso?